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Valorizando Nacionais

Misery, Metade Negra, Saco de Ossos, 1408, Janela Secreta entre outros. O que esses livros tem em comum além de ser escrito pelo mestre King? Simples, seus personagens são escritores. Mas não estou aqui para falar sobre o mestre e sua obra, mas sim, sobre um escritor nacional, que tem um grande potencial de impressionar seus leitores da primeira até a última página.

ben oliveira

O nosso escritor da vez chama-se Ben Oliveira, com sua obra Escrita Maldita. Ben tem apenas 28 anos. Além de ser escritor, ele também é blogueiro e jornalista por formação. Tem alguns contos publicados na Amazon e em diversas coletâneas. Em 2013, participou do Prêmio SESC, e ficou em 33° lugar entre os pré-selecionados, com seu original Amores Mortais.

Escrita Maldita é um terror psicológico, onde ele usa não um, mas dois escritores como personagem (pensa só, se um já dá medo, imagine em dose dupla). Ele também faz parte da geração Wattpad, onde tem alguns contos e dois livros na plataforma. Os Bruxos de São Cipriano, onde só tem mais de 60 mil leituras (pouquinho, né?).

Fiz algumas perguntinhas sobre seu livro:

1- Fale um pouco sobre Escrita Maldita. Como surgiu a ideia para o livro?

Escrita Maldita é aquele livro que pediu para ser escrito. Alguns personagens querem suas histórias contadas e Daniel Luckman foi um deles. Às vezes, as linhas podem ficar borradas em todos sentidos e foi isso o que tentei trabalhar no romance. O terror psicológico e o terror sobrenatural são mais próximos do que imaginamos, bem como a força do subconsciente e as associações que muitos fazem entre autores e personagens – sempre paira no leitor a dúvida do que realmente é ficção e o que não se passa de uma memória dos autores, aliás, às vezes, tudo fica tão confuso que as pessoas julgam os escritores pelas personalidades e ações dos personagens.

Escrever pode ser dom, mas também pode ser maldição. Daniel é um escritor sonhador que se refugia na escrita. Tentei brincar com a ideia da criação literária e de como ela pode ser intensa, mostrando um pouco desta experiência para o leitor. Há tantas ideias por trás do romance e quanto mais me aventuro em outras leituras, percebo as conexões. Acredito que escritores estão conectados não só pela paixão da escrita, mas também pelas ideias. Escritores completamente diferentes podem ter ideias parecidas e processos diversos. Parte da minha jornada de escritor foi me aventurar pelo universo da criação literária. Existem marcas em comum entre escritores, como a autocrítica e a síndrome do impostor, o uso da escrita para dar significado para a vida, transtornos mentais, vícios, entre tantas outras.

Daniel só descansou quando coloquei o último ponto final do livro. Eu e o personagem principal tentamos mostrar um pouco sobre o universo do terror, como o preconceito com a temática ainda é vivo. A ideia de juntar dois escritores de terror com bagagens diferentes foi mostrar como este universo vem se transformando, mas continua dialogando. Quem está familiarizado com a história de Edgar Allan Poe, por exemplo, sabe que ele morreu miserável, mas deixou o seu legado transformando o universo literário. Já Stephen King conseguiu quebrar este ciclo ainda vivo, mas durante muitos anos aguentou muito preconceito e foi massacrado pela crítica literária. A ideia do livro foi escrever sobre um assunto com o qual eu tenho muita afinidade e mostrar que o terror vai além do entretenimento e nos proporciona reflexões também, quebrando um pouco do preconceito bobo que tenta diminuir o gênero como ‘subliteratura’. Escrever um livro e ao mesmo tempo possibilitar ao leitor se aventurar por esse processo muito mais complexo e intenso do que as pessoas imaginam com uma dose de metaficção.

2- Quanto tempo você demorou para escrever?

Comecei a escrever Escrita Maldita em 2013 e concluí em 2014 e posteriormente passou por algumas revisões. Ao longo do processo de escrita, me possibilitei me afastar e reaproximar do livro, para deixar o material fermentar. Acredito que histórias podem ser planejadas, sem sombras de dúvidas, mas também gosto da força dos personagens. Ao mesmo tempo em que quis determinar os rumos dos personagens, quis que eles me levassem a conhecer mais seus passados, me tornar mais íntimo deles. O título provisório do livro era Lágrimas Negras, mesmo título do livro que o Daniel Luckman havia escrito e se tornou um best-seller. Como a história se passa nos Estados Unidos, o título em inglês soava da forma que eu esperava, mas em português perdia um pouco do impacto. Acabei mudando o título para Escrita Maldita em 2016, após enviar o original para algumas editoras e não ter resposta.

A sensação de autocrítica e de síndrome de impostor é tão forte, quanto acontece com o protagonista, que só tive coragem de publicá-lo em 2016 para participar de um prêmio literário. O romance não foi selecionado e para ser sincero, não tinha muitas esperanças… O terror quase nunca é o foco desses prêmios literários, mas consegui conquistar os primeiros leitores na versão eBook para Kindle.

Foi e continua sendo uma surpresa agradável. Fiz uma pequena tiragem impressa, que rapidamente esgotou e em breve devo fazer outra tiragem pequena, mesmo com as limitações de orçamento, mas a versão em eBook continua disponível na Amazon. Ser autor independente é desafiador, mas dá liberdade de publicar um livro sobre uma temática que muitas vezes não é vista como comercial e continua sendo ignorada por muitas editoras. Não foi mero acaso a escolha da história do livro se passar fora do país. Dificilmente um autor de terror seria best-seller com o romance de estreia por aqui e conseguiria sobreviver só de escrita.

3- Você cita alguns escritores e livros no decorrer da história. Você acha que isso ajuda na narrativa?

Sem dúvidas. Sou fã da intertextualidade. Nenhum livro ou autor está isolado do mundo, por mais solitário que ele seja. Como leitor, adoro me aventurar em histórias e construir minhas próprias conexões com outras obras literárias, seja quando as referências são explícitas ou implícitas. Nem todo leitor é escritor, mas todo escritor é leitor. Além dos livros, há também referências a filmes de terror: meu gênero favorito. Como os personagens principais do livro são escritores, seria inevitável não citar autores e obras, mesmo que fictícias.

4- Seus personagens ouvem e veem “fantasmas”. Segundo Laurence, principalmente, eles seriam sua “influência” na hora de escrever suas histórias. Na vida real, você acha que isso pode realmente acontecer?

Existem vários tipos de escritores, várias concepções sobre a criação. De onde vêm as ideias? Por que alguns personagens são mais insistentes do que outros? O que leva um autor a escrever um livro e abandonar outros? Os fantasmas podem ser metáforas, assim como a vida e a morte. Há quem acredite em musas, há quem coloque toda responsabilidade no autor. Assim como os fantasmas, os demônios também têm vários significados ao longo da existência. Acredito que todo escritor tem algumas fixações. Alguns temas são recorrentes e ficam marcados na escrita. De quem são essas vozes que sussurram histórias para os escritores? As pessoas acreditam no que elas querem acreditar. Nossas crenças estão relacionadas à arte que nós criamos.

Fantasmas podem ser sonhos, memórias, enfim, tudo aquilo que se repete, que nos assombra de alguma forma e o terror está relacionado ao medo. O medo é muito pessoal. Em Escrita Maldita, por exemplo, Daniel tem medo de perder o controle e enlouquecer, enquanto Laurence tem medo de que seus vícios possam destruí-lo e torná-lo mais solitário ainda, não importa o quanto ele faça sucesso, já que o dinheiro não é a resposta para tudo.

Gosto muito de um trecho do livro A Menina Submersa, da Caitlin R. Kiernan. Apesar de ter lido anos após escrever Escrita Maldita, creio que ele se encaixaria bem nesta resposta: “Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagados pelo tempo.”

O fantasma de Daniel, por exemplo, é a lembrança de que apesar de ser salvo pela escrita, não posso depositar todas minhas esperanças nela; a lembrança de que meu sonho de ser escritor profissional pode se tornar um pesadelo e que escritores foram e ainda são vistos como malditos e são desvalorizados, mas que podemos tentar lutar e fazer a diferença, quebrar ciclos.

5- O que você espera dos leitores em relação a Escrita Maldita?

Espero que suas leituras sejam prazerosas e de que o livro possa te tocar de alguma maneira. Quando você é escritor e está atolado de livros para ler, entende a importância do tempo para as pessoas. Eu já aceitei que vou morrer sem ter lido e sem ter escrito metade do que gostaria. Minha única pretensão é poder fazer aquilo que amo: contar histórias. Livros só existem quando os leitores se conectam com eles.

Os leitores conseguem arrancar meu sorriso quando dizem o quanto ficaram agoniados e mesmo tentando adivinhar como a história terminaria, eram levados para outra direção. Transportar o leitor para outro universo e fazê-lo sentir um pouco do mal-estar de Daniel e experimentar esses conflitos interiores da trama a ponto de se sentir asfixiado, por exemplo, me deixa com a sensação de missão cumprida, bem como indiretamente nos lembra da importância de entender o outro: geralmente, escritores são almas incompreendidas, mesmo entre outros escritores.

Claro, para poder me dedicar à escrita, é importante que os leitores comprem livros; poucos escritores brasileiros conseguem se dedicar integralmente à escrita. Entendo que cada livro toca o leitor de alguma forma, que o livro que um leitor ama, o outro pode odiar completamente – é um pensamento fácil de digerir na teoria, mas não tão agradável na prática, mas as coisas são como elas são. Em um dia você está no céu, no outro, no inferno. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio e também agradecer. Sem os leitores, os livros não se tornariam possíveis.

6- Quer deixar algum comentário ou dica para seus leitores?

Quero agradecer cada um de vocês que tem me acompanhado nesta jornada. Ser escritor não é fácil. Muitas vezes, passamos por inúmeras batalhas internas diariamente. Os primeiros anos são os mais difíceis até conseguir se estabilizar no ofício. Já aconteceu de estar em um péssimo dia, passar por inúmeros problemas e renovar as esperanças por causa de algum feedback de leitor. Eu diria para valorizarem os escritores que vocês admiram enquanto eles estão vivos. Mesmo que não possa comprar os livros no momento, tente apoiar de alguma maneira e demonstrar o quanto vocês apreciam o trabalho. Parece bobeira, mas geralmente leva anos até você ter coragem de dizer em voz alta: “sou escritor”, mesmo se já ganhou prêmios literários. É um ofício tão lindo e tão desvalorizado. Leitores muitas vezes são salvos por escritores, mesmo quando eles estão afundando. Escritores importam. Leitores importam. Livros importam. Sem a literatura, o mundo seria um porre. Sou muito grato pela oportunidade de responder a entrevista. Mais uma vez, muito obrigado, Elisângela!

Espero que tenham gostado, e que acrescentem esse livro na biblioteca de vocês. Até a próxima!

Link do Escrita Maldita: https://www.amazon.com.br/dp/B01M055CBO

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Comments:
  • Ben Oliveira
    22 de agosto de 2017 at 03:51

    Gratidão pela entrevista, Elisangela! Fico muito feliz pela oportunidade.

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