Uma Ovelha Negra no Poder: Confissões e intimidades de Pepe Mujica

 

Uma obra de Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, que mantiveram contato por vinte anos com seu entrevistado. Foram mais de cem horas de diálogos informais, institucionais, políticos e íntimos, com um dos sujeitos mais singulares e simpáticos que a política já viu. Foi um relato direto do protagonista para os autores.

Seu nome é José Alberto Mujica Cordano, mas os íntimos o chamam de Pepe Mujica. Carrega o título de ex-presidente mas o que mais lhe agrada é o de proprietário da chácara do Rincon del Cerro em Montividéu, no Uruguai. Um homem vivido e muito sábio, que valoriza as coisas simples da vida, é “austero” não pobre e assim pode ser senhor de sua liberdade. Como um de seus amigos o definiu, um Quixote com disfarce de Sancho.

Durante sua trajetória política foi julgado e criticado como incapaz de tarefas executivas, por não ser prolixo, ou seja o acusavam de não saber sintetizar o pensamento.  Mujica pouco se importou com as limitações do corpo ou da mente que lhe atribuíam,isso nunca o fez desistir de seus ideais ao contrário, virou trunfo.

Coloco meu passado na frente para que não me atrapalhe. Não tenho culpa das minhas peripécias. Minhas peripécias são consequência de terem me prendido, e tenho uma história diferente dos outros presidentes” (Mujica).

Diferente, essa é a melhor definição para este homem, que associa a palavra poder a uma ferramenta que corrompe e troca esse termo por paixão, que segundo ele, esse sim é o combustível certo para se alcançar as conquistas. Preso várias vezes sob acusações como roubo, que segundo os boatos tirava dos abastados para distribuir para os necessitados ou de ser guerrilheiro, pois era membro do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, uma organização de guerrilha uruguaia. Ficou mais de uma década condenado ao silêncio e quando retomou seu direito de voz, em nenhum momento utilizou-a para discursar vingança ou ódio, falou sobre a importância do perdão e da superação do passado.

Não sigo o caminho do ódio, nem mesmo em relação aqueles que foram cruéis conosco. O ódio não constrói. Essa é uma postura demagógica, não é querer ficar escondendo o jogo, maquinado as coisas: é uma questão de princípios” ( Mujica).

Foi o primeiro tupamaro a entrar no parlamento, eleito deputado em 1994, foi tomar posse no Palácio Legislativo em sua moto vestindo calça jeans, estacionou sua Yamaha em meio aos carrões de seus novos colegas e quando questionado pelo segurança se a moto ficaria estacionada ali por muito tempo, ele respondeu: “ Se me permitirem, vou deixá-la aqui por cinco anos”.

O povo queria algo diferente e Mujica colocava em evidência o estilo politicamente incorreto (que já abordei em outra ocasião), somando cada vez mais votos. Suas reuniões também eram autênticas, nada de assessores e secretários, tudo era feito cara a cara em pequenas reuniões. Esse comportamento era adotado com todos, até por quem não nutria bons sentimentos por ele, e para isso ele dizia: “É preciso abraçar algumas serpentes, se for necessário”.

Fazia de seus adversários, companheiros e salientava: “Sou apaixonado, mas não fanático, e é assim que vou governar. Com muito diálogo e tentando envolver todos que conseguir”. Ler e refletir enquanto estava encarcerado o salvaram da loucura, mas sua ideologia não o deixou engessado, ao contrário: “ O pior é quando a raiz ideológica não lhe permite perceber a realidade como ela é. Faz tempo que abandonei isso e me dei conta da importância de nuances”. Por isso, embora provido de literatura e cultura, sua principal fonte de consulta era o senso comum.

Uma das principais fontes de conhecimento é o senso comum. O problema é quando você coloca a ideologia acima da realidade. A realidade bate em suas fuças e o atira no chão. Quando a ideologia começa a substituir a realidade, você passa a viver na ficção, e isto vai levá-lo a ruína e conclusões fantasiosas, que não existem. Eu tenho de lutar para melhorar a vida das pessoas na realidade concreta de hoje, e não fazê-lo é imoral. Essa é a realidade. Estou lutando por ideais, magníficos, mas não posso sacrificar o bem-estar das pessoas por ideais. A vida é uma só e é muito curta” (Mujica).

Foi um presidente irreverente, que não se ateve a protocolos, segundo o relato de seus subordinados: “É muito difícil trabalhar com Mujica. Ele não gosta de seguir nenhum roteiro e até se irrita quando você tenta planejar os detalhes”. Em outra ocasião, Mujica faz um comentário que explica a linha de raciocínio de seus funcionários: “Caguei pra eles. Deixo-os loucos”, mas preocupava-se e tratava muito bem seus subordinados. Os que mais sofriam com seu jeito desligado das formalidades,  era a sua guarda, segundo o ex-presidente: “Não é necessário ter muito cuidado por que se quiserem atingi-lo, vão atingi-lo”.

Teve sempre os mesmos hábitos, o que chamava atenção dos anfitriões e do público por onde passava. Usava seu estilo diferente com muita inteligência, e a seu favor. Se intitulava um irreverente nato, e seu objetivo era desmistificar o poder transformado o presidente em um cidadão comum. Dizia que: “Com a bobagem do poder […] tudo se justifica, e você acaba em uma casinha de marfim cercado por uma corte de alcaguetes que a única coisa que faz é lamber o figurão, o poderoso. Isso é muito perigoso”. Não via empecilho nenhum em não ser maçom, não ter diploma universitário e ser ex-presidiário, poderia sim ser presidente e assim o fez.

Um leitor de Confúcio, Nicolas Maquiavel e Carl Von Clausewitz e sua obra Da Guerra, que defendia a liberdade e que esta não é ausência de responsabilidade, nem de limites. Existe sim um limite, e segundo Mujica ele está em não prejudicar o outro. Um pecador irônico nato, um sujeito brilhante, uma ovelha negra que provoca e faz pensar. Uma ótima leitura, sobre um ótimo sujeito.

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