A última flor do Lácio viveu em Lanzarote

O barulho dos ventos chega a dar medo. O solo é quente como brasa. A ilha espanhola de Lanzarote é um infinito de lava petrificada. Em alguns pontos, o calor ainda guardado no subsolo impede que a vida surja. Mas somente nessa região do planeta uma rara flor pôde ser vista em sua essência. Tratava-se da última flor do Lácio. Lanzarote foi o lar de José Saramago, o único autor de Língua Portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.

Em seu refúgio no Arquipélago das Canárias, Saramago concentrava tudo de que precisava: Pilar, sua esposa; lembranças; e seus maiores conselheiros. Conselheiros estes dispostos em uma imensa biblioteca, onde o escritor passou a maior parte de seus últimos dias. São tantos livros que nem é possível arriscar a quantidade. O local, aliás, hoje é um ponto turístico, aberto à visitação.

José Saramago foi funcionário público, depois tornou-se jornalista. Na caminhada, chegou ao posto de diretor do famoso Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais de Portugal. No ápice de sua carreira profissional, foi demitido. Não sofreu. Decidiu dedicar-se à literatura. José Saramago escreveu romances, contos, crônicas, peças teatrais, poemas e histórias infantis. Entre suas mais importantes obras, figuram “Terra do Pecado” (1947) e “Ensaio sobre a cegueira” (1995). Escreveu até seus últimos dias e foi o principal responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em Língua Portuguesa. Se pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente? “Se eu pudesse repetir minha vida, repeti-la e repeti-la-ia exatamente como foi”.

Todo racionalismo se transformava em gratidão quando o autor falava sobre Pilar. “Minha vida não seria o que é hoje se não tivesse conhecido a Pilar”. De fato, um dos mais importantes pilares da vida do escritor lusitano. A diferença de idade era de quase trinta anos. A admiração que um sentia pelo outro mostrava a intelectualidade de dois anciãos. O amor que nutriam era como o de namorados no colegial.

Certa vez, questionado sobre a emoção de ganhar o maior prêmio literário do mundo, o escritor mostrou, com a serenidade que lhe era um padrão, que recebeu a premiação sem vaidades:

— Tenho o Prêmio Nobel. E quê? – respondeu Saramago.

Ele não desdenhava o prêmio. Não afirmava que era algo pequeno e desnecessário. Mas, no geral, questionava-se sobre a significância de todas as coisas. Mostrando a sapiência que o consagrou, complementou o raciocínio:

— Tudo é pouco. Tudo é insignificante. Que eu estivesse a pensar no universo. Em relação ao universo, o Prêmio Nobel não teria importância nenhuma.

Em 2010, aos 87 anos de idade, Saramago faleceu, vítima de leucemia crônica. Segue em atividade, promovendo a cultura em Portugal e no mundo, a Fundação José Saramago, administrada por Pilar del Río, a tão amada companheira de vida daquele que foi um dos mais talentosos romancistas em Língua Portuguesa. Saramago construiu a fundação três anos antes de sua morte, a qual nunca temeu. Em uma entrevista, ao tratar de um possível medo de morrer, lembrou uma frase dita pela avó, já ao fim de sua vida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer”. O escritor resumiu em uma rápida afirmação, que sintetizava todo seu pensamento sobre a morte:

— Ela não tinha pena de morrer. Tinha medo de não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que ela achava bonito.

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