Top 3: Livros x Filmes

Existe uma regra de ouro que diz o seguinte: “Um filme baseado em um livro será sempre inferior ao material original”. Geralmente isso acontece por vários motivos: o filme pode não permitir um desenvolvimento aprofundado dos personagens; a história pode acabar não sendo bem contada ou desenvolvida; boa parte do conteúdo, talvez pontos importantes, pode ser suprimida do filme por uma questão de tempo; a própria história pode ficar em segundo plano em detrimento da ação ou de outros fatores; etc, etc, etc.

Mas, sendo uma regra, é natural que existam algumas exceções.

Sendo assim hoje vou começar a apresentar o meu Top 3 de filmes melhores que os livros nos quais se basearam.

E antes que uma enxurrada de tomates virtuais seja enviada para esta coluna, queria deixar claro que minha avaliação acontece muito mais como leitor de longa data e espectador veterano. Uma trama bem contada, personagens críveis e uma atmosfera envolvente são fundamentais para que uma história seja imortalizada nas nossas mentes. Como pretendo mostrar, nem sempre o livro se sai tão bem.

Como certas diferenças e similaridades vão ser apresentadas, melhor informar que existem várias revelações sobre o enredo, ou spoilers, na coluna de hoje. Sendo assim, siga por sua conta e risco.

Vamos começar.

3° Lugar: Vampiros do Espaço (The Space Vampires, 1976) X Força Sinistra (Lifeforce, 1986)

Colin Wilson (1931-2013) conseguiu a façanha de emplacar um Best Seller em sua estreia literária com o romance The Outsider, um estudo existencialista sobre a “criatividade, alienação e mentalidade moderna”. Durante sua carreira o autor publicou artigos em revistas literárias analisando (de maneira não muito favorável) a obra de H.P. Lovecraft. Seu romance Vampiros do Espaço, inclusive, surgiu de um desafio feito por August Derleth, amigo de Lovecraft. Em resumo o desafio foi: “Não gostou? Faz melhor!”

O livro e o filme Força Sinistra giram em torno deum tema central em comum: uma missão espacial encontra uma nave no espaço. A equipe de astronautas encontra três humanoides – dois homens e uma mulher – em animação suspensa. Na verdade esses extraterrestres são vampiros que se alimentam da energia vital dos seres-vivos. O comandante da missão, o coronel Olof Carlsen, sente-se inexplicavelmente atraído pela mulher alienígena. Quando os extraterrestres são trazidos ao planeta Terra, a mulher desperta e foge do local onde era mantida. Pouco tempo depois, lá pelas tantas na história, os protagonistas descobrem que a vampira abandonou seu corpo e possuiu o corpo de uma infanticida mantida em uma solitária em um manicômio.

As semelhanças param por aí. Enquanto o livro é ambientado em 2080, o filme se passa em 1986 (inclusive a nave alienígena está oculta na cauda do cometa Halley, que nos visitou naquele ano). O despertar da moça-alien-vampiro é o começo de uma carnificina épica no filme. No livro apenas um personagem morre: Seth Adams, um repórter um pouco irritante que tem sua energia vital totalmente sugada pela vampira.

Enquanto o filme é um jogo de gato e rato, com os protagonistas perseguindo a vampira para evitar mais mortes, o livro segue um caminho bem mais lento. Muito mais lento mesmo. Após a fuga, a tal vampira é encontrada morta em um parque. Os outros alienígenas são cremados. Entretanto, os protagonistas não acreditam que o terror tenha acabado e conduzem suas próprias investigações, que incluem uma viagem para um castelo na Suécia, seguida de uma longa estadia no local, para encontrar um cientista que, apesar de ter 90 anos de idade, se mantem jovem pela transferência de energia. As explicações sobre essa tal “contagem lambda”, a tal energia vital que possuímos, e sobre os processos de transferência dela se estendem por intermináveis páginas e mais páginas. Por mais que tais explicações possam ser importantes para a trama, a maneira como são inseridas no texto resulta em uma quebra da dinâmica da narrativa capaz de desinteressar um leitor menos motivado.

Enquanto o filme evolui da carnificina para o eventual confronto final, no livro nem mesmo existe um confronto final! No desfecho temos um evento no melhor (ou pior) estilo Deus ex machina. Acontece que a dupla de vampiros que teve os corpos incinerados possuíram os corpos do Primeiro-Ministro da Inglaterra e de sua secretária. O plano dos vampiros é possuir o corpo dos protagonistas e trazer a nave para a Terra, onde outros alienígenas em animação suspensa a bordo vão sugar a energia da população.

Acontece que Carlsen já estava possuído por um quarto-alienígena, um policial do espaço, que persegue os vampiros para destruí-los. Esse momento, em teoria, seria a grande reviravolta do livro, mas quando eu li tive de parar e reler pra entender se era realmente aquilo que eu tinha entendido. O policial-espacial leva os vampiros embora, as autoridades abafam o caso, um escritor encontra os protagonistas anos depois do ocorrido e, resumindo, fim do livro.

Quando li “Vampiros do Espaço” ainda não tinha lido nada de H.P. Lovecraft, e realmente fiquei me perguntando como seria a obra de Lovecraft se Vampiros de Almas nasceu de um desafio do tipo “Faça melhor!”.  A ideia da história é interessante, mas o autor acabou empregando muita exposição teórica e um ritmo lento que apenas serviu para quebrar (muito) a dinâmica da história.

Reconheço que, pelo menos nesse caso, comparar o filme e o livro é meio injusto. Seria mais adequado dizer que o filme se inspirou no livro.  Enquanto o livro tentou seguir por um caminho de profundidade quase inalcançável, o filme, mesmo com todos os excessos dos filmes de terror dos anos 80, tentou se ater à história principal.

O comentário de Colin Wilson sobre o filme após assisti-lo foi: “Achei horrível! O Pior filme de todos os tempos!”. Levamos em conta a reação do escritor ao ver sua obra levada às telas de maneira reduzida, mas depois de rever e reler, me pareceu muito mais que o filme cortou a bagagem extra. Além disso, foi uma crítica agressiva demais levando em conta que o roteiro adaptado foi coescrito por Dan O’Bannon (1946-2009) responsável pelos roteiros de, entre outro filmes,  Alien (1979), A Volta dos Mortos-Vivos (The Return of the living dead,  1985) e O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990). Ou seja, um profissional que entendia bem do seu ofício.

Concluindo: o filme foi indicado ao Saturn Award na categoria de melhor filme de horror de 1986, uma premiação organizada pela Academia de Filmes de Ficção Científica, Fantasia e Horror dos Estados Unidos.

Na próxima semana vamos ver um clássico que mesclou suspense, policial e rituais macabros.

 

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