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Top 3: Livros X Filmes

Ataques de um tubarão branco assustam os habitantes da ilha de Amity. A possibilidade de interditar a praia para os banhistas é uma ameaça à própria sobrevivência do local, que tem sua principal fonte de renda no turismo. Três homens partem para o mar, cada um por motivos próprios, para caçar o animal e trazer a paz de volta aos mares.

Antes do filme Tubarão (1975), existiu um livro de mesmo nome, lançado no ano anterior. O livro de Peter Bradford Benchley (8 de maio de 1940 – 11 de fevereiro de 2006) se tornou um Best-Seller. O filme, por sua vez, foi o protótipo do que passou a ser o blockbuster cinematográfico.

Na coluna de hoje veremos algumas diferenças entre o livro e o filme “Tubarão” e vou explicar por que considero esse o primeiro lugar do meu Top 3: Filmes melhores do que os livros que os inspiraram.  Pra ser justo, daqui pra frente vou fazer várias revelações sobre o enredo. Então, se por algum motivo você nunca leu o livro ou viu o filme, spoilers adiante!

O filme e o livro seguem a mesma ideia. Em uma ilha, um corpo é descoberto na praia. O médico-legista acredita que a causa da morte foi o ataque de um tubarão, o que faz com que o chefe de polícia Martin Brody decida fechar as praias. O prefeito da cidade, Larry Vaughn, temendo o impacto financeiro que essa ação pode ter sobre a cidade, acaba pressionando e convencendo o legista a rever suas conclusões e convencendo Brody a reconsiderar. Um segundo ataque de tubarão faz com que uma recompensa seja oferecida para quem capturar o animal, causando uma corrida de caçadores amadores. Um tubarão chega a ser capturado, mas Matt  Hooper, um oceanógrafo fascinado por tubarões, diz que o animal capturado não é o mesmo pois a marca das mordidas nos corpos são consideravelmente maiores. Mais um ataque fatal faz com que o prefeito contrate um caçador de tubarões profissional, Quint, para, junto com o policial e o oceanógrafo, caçarem o animal.

Pois bem, tendo isso em vista, vamos falar sobre os personagens do livro que, apesar de terem os mesmos nomes e profissões dos apresentados no filme, são bem diferentes. No livro, o chefe Brody é um homem que se ressente (constantemente) por estar envelhecendo. Seu casamento não vai muito bem das pernas – pra dizer o mínimo. Sua esposa é infiel e o trai com ninguém menos do que… Hooper, o oceanógrafo que participa da caçada ao tubarão. Hooper no livro é retratado como um homem muito orgulhoso de seus títulos educacionais e não raro se indispõe ou se irrita com pessoas que tenham opiniões diferentes das suas. A relação entre o oceanógrafo e o policial não é das melhores. Em determinado ponto, Brody chega a tentar estrangular Hooper. Outro personagem drasticamente modificado foi Quint. No livro ele quase não fala e, pra piorar, durante a caçada ele utiliza pedaços cortados de filhotes de golfinho para atrair o tubarão branco. Que bastardo!

Ou seja, os personagens principais do livro não são o tipo de pessoa que você quer ver escapar. O próprio diretor do filme, ninguém menos do que Steven Splielberg (1946), após ler o livro e antes das filmagens, chegou a comentar que chegou a torcer para que o tubarão acabasse com a tripulação do barco Orca. Era preciso fazer algo que fizesse o público torcer pelos protagonistas, tornando-os menos detestáveis. Sendo assim, a sub trama envolvendo o adultério foi cortada do roteiro. Os bebês golfinhos mortos não são decepados e nem aparecem. Brody é um policial tentando fazer seu trabalho para proteger a ilha e, consequentemente, sua família. Hooper é muito mais um nerd simpático e super-empolgado por tubarões. E, uma das melhores mudanças, o caçador profissional de tubarões, Quint, além de se tornar uma espécie de pirata fanfarrão da melhor qualidade, ganha um background que explica porque ele faz o que faz. Durante a Segunda Guerra Mundial, Quint estava em uma missão no U.S.S. Indianápolis, o navio que transportou a bomba de Hiroshima. O navio foi atingido por um torpedo japonês e toda a tripulação teve de abandonar o navio, pulando na água infestada de tubarões. Como a missão era secreta, o socorro demorou a chegar, fazendo com que os homens tivessem de lutar por sua sobrevivência na água, enfrentando tubarões e sendo devorados (para mais detalhes, procure por “O Discurso de Quint” ou “Quint´s Speech”).

Outro ponto crucial modificado foi o final. No livro, após afundar o barco, causar a morte de Quint e matar Hooper, o tubarão branco avança para matar Brody, que flutua desprotegido entre os destroços do barco. Quando parece ser o fim do policial, o tubarão para de se mover e começa a afundar, presumivelmente morto em decorrência dos ferimentos do arpão lançado por Quint. O final do filme, por mais fantasioso que seja, é mais digno de um clímax, uma morte adequada para um monstro de pesadelo como o tubarão do filme.  O barco também foi afundado pelo tubarão e Quint também foi morto, mas Hooper conseguiu se proteger e se esconder do tubarão. Brody, entre os destroços do barco, espera o tubarão se aproximar e explode, com um tiro certeiro, o tanque de oxigênio que ele carregava na enorme mandíbula.

Em resumo, a grande diferença entre o livro e o filme, nesse caso, está na construção dos personagens. Uma regra que sempre deveria ser respeitada principalmente em livros/filmes de terror e suspense: é importante que o leitor/espectador desenvolva, ao longo da história, algum tipo de vínculo com o protagonista ou com os personagens que estão sob ameaça. Esse vínculo cria empatia e faz com que troçamos pelo personagem, roendo as unhas quando ele se prepara pra entrar no quarto escuro onde o assassino pode estar ou demorando pra sair da água onde o tubarão nada oculto. Quando isso falha e o leitor/espectador começa a torcer pelo antagonista e se não foi isso que o autor planejou, alguma coisa se perdeu no processo.

 

tubarao

Comments:
  • Elisangela
    5 de maio de 2017 at 22:53

    Nunca gostei muito desse filme, e também nunca me interessei por esse livro, nunca foi minha praia, mas depois desse artigo que ficou incrível, vou ler esse livro.

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