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Top 3: Livros X Filmes

 Um detetive particular é contratado por um cavalheiro para encontrar um homem com quem tem uma dívida. O fulano desaparecido em questão, um crooner em ascensão que teve sua carreira interrompida ao  ser gravemente ferido durante um ataque da Luftwaffe, a força aérea alemã, na Tunísia. Além dos ferimentos físicos, o desafortunado também perdeu a memória. Seu último paradeiro conhecido foi um asilo de onde ele sumiu. Conforme avança nas investigações o detetive encontra indícios que ligam o desaparecido à cultos obscuros, conspirações, assassinatos… e isso nem é o pior de tudo.

Coração Satânico tem um dos enredos mais originais que eu já conheci. O livro, escrito por William Hjortsberg  (nascido em 1941) em 1978, foi levado para as telas em 1987, tendo seu roteiro adaptado pelo diretor do filme, Alan Parker (nascido em 1944). O nome original do livro é Falling Angel, enquanto o filme recebeu o nome de Angel Heart.

O livro e o filme seguem as aventuras e  desventuras de Harry Angel, o detetive, para encontrar o ilustre desaparecido, Johnny Favorite, enquanto vai se afundando cada vez mais em um atoleiro de mentiras, meias-verdades e traições. Pra piorar, todas as pessoas com quem o detetive tem contato por conta de suas investigações são brutalmente mortas, mostrando que o assassino está muito mais perto do que se imagina.

Tanto o livro quanto o filme são excelentes, mas…

Hoje vou falar um pouco sobre porque considero esse filme para o 2º lugar do meu TOP 3 – filmes melhores que os livros que os originaram. E nesse caso realmente não foi uma tarefa fácil. Não há como negar que o livro Falling Angel é incrível, não apenas pela originalidade da história mas também pela forma como ela é apresentada. Os diálogos são primorosos e recheados de humor ácido e cortante. Mas, mesmo assim, nada mais apropriado para uma obra tão diabólica quanto fazer o papel de Advogado do Diabo.

E só por desencargo de consciência: Revelações sobre o enredo adiante. Ou, spoiler alert.

A grande diferença entre o filme e o livro está na atmosfera. Enquanto Hjortsberg  fez uma descrição fiel da Nova York de 1959, passando pelos principais pontos turísticos e contando uma história muito original e que envolve ocultismo, investigação policial, mistério, horror e até romance, quando Alan Parker adaptou o roteiro optou por se focar em uma ambientação decadente e opressiva. Enquanto o livro tem exclusivamente Nova York como locação, no filme o protagonista também realiza suas investigações no coração dos cultos haitianos nos Estados Unidos: a misteriosa Louisiana. Hjorstberg colocou doses calculadas de humor não apenas nos diálogos, mas também na narração, uma vez que a história do livro é narrada por Harry Angel, o protagonista.

Outra notável diferença do filme está em um personagem crucial para a trama: o homem que contrata Harry Angel para a tarefa. Seu nome é Louis Cyphre, um cavalheiro de posses e bom gosto, parafraseando uma certa música dos Rolling Stones. No filme e no livro suas aparições acontecem em momentos cruciais, onde o detetive expõe seus avanços e dificuldades na investigação para seu cliente. No livro, entretanto, temos também dois momentos em que o detetive segue o sr. Cyphre e o descobre conduzindo uma espécie de show místico para uma platéia. Com direito a turbante, pele bronzeada, vestido como um sultão e ostentando o nome de El Çifr. Esse contato mais aprofundado com as outras atividades desse personagem me causaram estranheza por um simples motivo que eu acredito ser bem fundamentado: Louis Cyphre, como o próprio nome já diz, é o próprio diabo. Durante o livro algumas pistas são dadas, mas é claro que apenas relendo o livro isso fica claro. Por exemplo, Cyphre usa um pentagrama invertido como adorno de grava e lá pela metade surge a explicação de que esse é um símbolo que representa o mal e o infortúnio.

Mas a maior de todas as diferenças é o clímax das duas histórias, apesar de ambas serem extremamente contundentes. No livro, Angel presencia um ritual satânico nos subterrâneos do metrô, com direito ao revoltante sacrifício de um bebê e uma versão de Sabá das Bruxas. Ao interrogar um dos participantes do ritual, Harry Angel é confrontado com a revelação de que Favorite havia vendido sua alma para o diabo mas tentara burlar o pacto, transferindo sua alma para o corpo de um jovem soldado que voltou mais cedo da guerra ao ser ferido. Acontece que esse jovem ferido é, nada mais nada menos, do que o próprio Harry Angel. Em um momento posterior, Cyphre aparece para Angel e explica sua intenção: incriminar Angel nos assassinatos das pessoas que foram mortas durante a investigação e assim tomar posse da alma de Angel/Favorite, assegurando que a dívida seja finalmente paga.

No filme não temos a cena do ritual, mas Angel também interroga um dos envolvidos no ritual em que Favorite tentou ludibriar o maior dos enganadores, obtendo a mesma revelação. Posteriormente ele também é confrontado por Louis Cyphre. A grande diferença é que as pessoas mortas durante a investigação foram assassinadas pelo próprio detetive. Conforme a investigação avançava e Harry ia chegando mais perto da verdade, a personalidade de Favorite ia voltando à tona, fazendo com que ele cometesse os crimes. Assistindo o filme em retrocesso realmente dá pra notar que algumas nuances das personalidades do protagonista vão se alterando, chegando ao ponto em que o protagonista não sabe exatamente quem é.

Mais uma vez, tanto o livro quanto o filme são material de primeira. Entretanto, o filme ganhou pontos comigo como história de terror pelo mau estar que ele cria conforme sua história é contada, mesmo sem apelar para situações extremas de gore (não significa que ele não é sangrento), sustos ou criaturas horríveis. A história apresentada no filme é uma daquelas onde você não para de pensar “Cara, eu realmente não queria estar na pele desse coitado…”

No nosso próximo encontro vamos descobrir quem é nosso primeiro colocado.

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Comments:
  • Carlos Júnior
    12 de junho de 2017 at 05:16

    Excelente análise comparativa. Li o livro completo em apenas um dia e logo corri para ver a adaptação para o cinema. Ambas obras são excelentes e impactantes a sua maneira. Bom pra gente, temos o melhor dos dois mundos. Ah, tem a nova edição do livro lançado pela editora Darkside books.

    • Hedjan C.S.
      13 de junho de 2017 at 23:23

      Obrigado, Carlos! Acho legal ver como o filme e o livro funcionam como “obras complementares”. Dá pra ver como uma história pode ser contada de maneiras e em mídias diferentes sem que isso signifique “perder algo”.

      Obrigado pela visita!

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