Sete Ossos e Uma Maldição

Um vizinho esquisito que mora em uma casa com fama de assombrada. Uma festa com ambientação mórbida.Meninos aprontando traquinagens em um cemitério. Uma boneca estranha. Barulhos assustadores no meio da noite. E jovens que não deveriam ter se metido nessas histórias.

Apesar de ter sido escrito para o público jovem, Sete Ossos e Uma Maldição (Rocco, 2006) de Rosa Amanda Strausz tem potencial para agradar várias faixas etárias. Eu, que me considero um leitor veterano de contos fantásticos e calejado pelo medo literário, fui fisgado já nas primeiras páginas do livro (Crianças à venda. Tratar aqui).

Composto por 10 contos, as histórias acompanham jovens que são confrontados com eventos sobrenaturais a partir de situações corriqueiras. O novo morador na casa que já tinha fama de assombrada, o desconhecido sedutor que aparece na festa com tema bizarro, acontecimentos estranhos no quarto de uma menina envolvendo uma maldição, um desafio de coragem entre garotos, etc.

De uma maneira leve e eficaz a autora consegue duas façanhas dignas de nota: pega o leitor pela mão com leveza e o conduz por cemitérios, casas velhas, locais abandonados. Depois, com seus finais em aberto, ela desaparece na escuridão e deixa o pobre leitor ali, sozinho, imaginando o que virá depois.  Aliás, a autora coloca em prática com maestria a máxima de que o escritor é dono de apenas metade do que escreve. Prepare-se para continuar pensando nas histórias mesmo após seus finais. Não espere baldes de sangue, cabeças sendo rachadas nem tripas sendo exibidas. A construção do terror de Rosa Amanda Strausz é algo muito mais sutil. É o tipo de medo que vai deslizando aos poucos sob a pele do leitor, transformando uma simples pulga atrás da orelha em um calafrio de medo.

As histórias se passam em solo nacional e os personagens bem poderiam ser aqueles meninos e meninas que moram no seu prédio ou na sua rua. Além disso, elementos das crenças religiosas presentes em nosso país também são muito bem utilizados. Temos, por exemplo, a procissão que corta as ruas de madrugada, só que esta é composta por vivos e por mortos; além disso, em uma das histórias uma certa pessoa da família incorpora entidades para ajudar (ou não) os que estão vivos a enfrentarem uma maldição.

Em resumo, considero essa uma das nossas pérolas do medo nacionais, um livro que merece ser lido não apenas pelos jovens, mas pelos amantes da literatura do medo de qualquer idade.

Em tempo, a jornalista, escritora e editora Rosa Amanda Strausz nasceu no Rio de Janeiro, em 1959. Sua estréia na literatura, o livro Mínimo Múltiplo Comum, recebeu o Prêmio Jabuti em 1991. Em 1995, com Mamãe Trouxe Um Lobo para Casa!, ganhou o Prêmio Revelação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então, publicou mais de uma dezena de livros infanto-juvenis.

 

 

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