Se7en. Os sete crimes capitais e o mal-estar do mundo contemporâneo

No artigo anterior eu falei sobre o thriller e o suspense e como eles se encaixam na história da ficção policial. Desta vez abrirei mão de um livro do gênero e escreverei sobre um filme, “Seven, os sete crimes capitais”. A película de 1995, dirigida pelo competente David Fincher, com roteiro de Andrew Kevin Walker e com as boas atuações de Morgan Freeman, Brad Pitt e Kevin Spacey, é, certamente, um dos clássicos do cinema policial.

Não farei aqui fazer um resumo do filme, ou uma mera crítica apontando os pontos altos ou baixos. Ao contrário, falarei dos seus personagens e das discussões que o filme nos apresenta. Como já disse no meu artigo de defesa do romance policial, reafirmo que o gênero não é só um mero rótulo utilizado para caracterizar uma forma de contar histórias. Como toda expressão artística, a ficção policial é capaz de atingir as mais profundas camadas da alma humana e das suas misérias. A morte, senhores e senhoras, é o limiar do mundo conhecido. Ela sim é a última e definitiva fronteira.

A história se passa numa grande metrópole estadunidense, Los Angeles. No entanto, mal sabemos qual é o seu nome. O quase anonimato da urbe, longe de ser negligência, reforça a mensagem de que aquela cidade é nenhuma cidade ao mesmo tempo em que é todas as cidades. Ela é uma selva e o nome da selva não importa aos seus habitantes. A e a chuva torrencial está lá, assim como o clima noir, que é imposto pelas sombras (a fotografia do filme é um evento à parte), que povoam os quatro cantos do mundo dos detetives.

Os protagonistas são o detetive William Somerset (Freeman), veterano e prestes a se aposentar, e o detetive David Mills (Mills), vindo de uma cidade interiorana com a esposa, Tracy (Gwyneth Paltrow). Os detetives funcionam como duas forças opostas, que se chocam, mas, ao tempo, se atraem. Somerset é um policial pessimista, corroído por décadas de um trabalho que considera brutalizante e sem sentido. Mills, em oposição, é um homem novo e cheio de ímpeto. Enquanto aquele é frio e metódico, este é esquentado e temeroso. Tracy encarna a simplicidade do campo e o horror diante da selvageria da cidade grande.

O caso — o último de Somerset e o primeiro de Mills — começa com um crime bizarro. Numa segunda-feira um homem, com obesidade mórbida, é encontrado morto com o rosto enfiado numa bacia de macarrão. As pistas do local e o exame pericial indicam que foi um assassinato. Na terça-feira um advogado, famoso por defender criminosos, é achado em seu escritório. Ele morreu depois cortar uma parte do próprio corpo. Entretanto, havia ali algo muito estranho: estava escrita no tapete, com o sangue da vítima, a palavra avareza. O desenvolvimento da investigação revela que os crimes estão ligados aos sete pecados capitais da tradição cristã.

As investigações levam os policiais a mergulharem na complexidade do caso e, para tanto, se debruçam na literatura cristã relacionada aos pecados e às suas respectivas punições. O mundo atual, laico e brutalizado, é o palco perfeito para a pregação do assassino contra a decadência da nossa civilização.

Sete pecados, gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e soberba; sete crimes em sete dias; e o tempo que insiste em passar. O criminoso, calculista, dita o ritmo da investigação, guiando os passos dos policiais, que seguem catalogando pistas, recolhendo corpos e desvendando a mensagem: para ele não se tratado de um crime, mas sim de um manifesto.

As personalidades dos policiais seguem como faróis, iluminando as ideias do assassino e a sociedade a qual ele ataca. Somerset, realista, compreende o sentido dos assassinatos e percebe a profundidade da situação em que estão presos. O detetive sabe que o serial killer tem razão, mas, em nome de uma civilidade acomodada, aceita seu papel de caçador. Mills, emocional e impulsivo, segue negando a racionalidade do criminoso. Mills é, ao mesmo tempo, o otimismo da sociedade, que acredita que, mesmo diante do abismo, é possível melhorar, e a sua cegueira, que insiste em negar que é corrupta e degenerada.

A mente do serial killer (Spacey), apresentada de forma magistral pelo diretor e pelo roteirista, é outra força a ser considerada. É ela quem dita o ritmo da narrativa. O assassino, que aparece quando e como quer, é o terceiro elemento indispensável da história. Ele é o mal-estar de uma civilização degradada e hipócrita; e atua como seu denunciador e seu carrasco. Ele acredita ser portador de uma missão divina. O seu diálogo com os policiais, no clímax do filme, é de uma lucidez assustadora. Somerset sabe disso. Mills segue negando.

A conclusão da história, como em todo o suspense que se preze, é inesperada e avassaladora. Os sete crimes, assim como os sete pecados, se revelam: e a mensagem do assassino é terrível.

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Abraços e até o próximo artigo.

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