Resenha – Vento Sudoeste

Neste artigo trago uma crítica à obra do escritor policial Luiz Alfredo Garcia-Roza e do seu terceiro romance Vento Sudoeste, lançado em 1999. Minha intenção aqui é apresentar um autor nacional que escreve na modalidade Romance Policial de Enigma.

Garcia-Roza estreou na literatura aos sessenta anos de idade, sua primeira obra nos apresenta Espinosa, protagonista em dez de seus onze romances publicados até o momento. Antes de se aventurar no romance policial, ele atuou como professor universitário e escreveu livros na área de Psicanálise e Filosofia. Seu primeiro livro romance, O silêncio da chuva, lançado em 1996, venceu naquele mesmo ano o prêmio Nestlé de Literatura e em 1997 ganhou o prêmio Jabuti, tornando a sua estreia muito bem sucedida.

Espinosa, personagem com nome de filósofo e um colecionador de livros policias, é um carioca que guarda com a cidade uma relação íntima. Conhecedor de Copacabana, bairro onde mora e trabalha como delegado na 12ª DP, ele caminha pelas suas ruas perseguindo criminosos e conversando com seus habitantes.

As histórias de Garcia-Roza estão ligadas ao romance de enigma, porém não pensem que seus livros são atualizações dos escritores da Era de Ouro do romance policial, em que as deduções do detetive são apresentadas em tom de genialidade. Ao contrário, as aventuras de Espinosa tomam como foco os seus personagens, suas imperfeições e seus dramas, repletos de nuances. O delegado, além da sua grande capacidade imaginativa e seus constantes mergulhos em campo, conta com a ajuda de outros dois investigadores, Welber e Ramiro. A cidade também é um personagem, com as suas complexidades e mazelas. Todos esses elementos, e muitos outros, aparecem sob uma prosa precisa e misteriosa, a serviço da narrativa.

Como aspirante a escritor eu acredito que nomear romances, contos, enfim, histórias, é algo sempre muito delicado. Como afinal chegar a um título que resuma bem a história sem, contudo, entregá-la ao leitor? A resposta mais sincera que posso dar é “Não há matemática para isso!”.

Muitos escritores encontram o nome da sua história antes de começar a escrever, uns durante o processo de escrita e, por fim, aqueles que somente depois da conclusão conseguem achar o nome. Bem, eu não sei como se deu o processo de escolha do nome para Garcia-Roza, mas, uma coisa eu posso dizer: que escolha feliz!

Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que o vento sudoeste é mais do que um fenômeno natural, ele é também um fenômeno simbólico. O Sudoeste, como é carinhosamente chamado por muitos moradores, representa a mudança. Ele traz ventos fortes, chuvas, frio, ressacas, enfim, ele inverte a imagem cristalizada na cabeça de muita gente do que o Rio de Janeiro é sol e praia cheia nos 365 dias do ano. A irreal Cidade Maravilhosa. Garcia-Roza transforma a calmaria dos personagens em agitação, assim como o sudoeste faz com o mar.

O nome, como disse, é feliz porque representa de forma competente o personagem Gabriel. Ele é um jovem pacato, que passa os dias entre o trabalho e a casa, onde mora com a mãe. Até aqui nada demais, a não que um ano antes do começo da história, durante a comemoração do seu aniversário com os amigos do escritório, ele recebeu de um vidente uma profecia: antes de completar o próximo ano de vida ele mataria uma pessoa.

O dia do seu aniversário estava chegando, assim como o vento sudoeste, para virar a sua vida de ponta-cabeça. À beira de um colapso nervoso, Gabriel procura Espinosa e explica que em breve matará alguém, mas que ele não sabe quando, onde e muito menos quem. E esse é o início da trama.

O caso, a princípio sem pé nem cabeça, intrigou o delegado, que mergulhou nas águas daquele mar caudaloso na medida em que o futuro assassino se perturba cada vez mais com a possibilidade de matar alguém.

A mãe de Gabriel, superprotetora, controladora e muito católica, percebe o terremoto na alma do seu querido filho e sabe que deve atuar para salvá-lo. E ela só pode contar consigo mesma e com Deus, pois o pai de Gabriel morreu quando ele era criança. E as tentações são muitas, vícios e mulheres luxuriosas são dois inimigos a serem combatidos com força.

Gabriel, desesperado, pede ajuda a sua amiga de trabalho Olga, que, juntamente com Irene, futura companheira do delegado, tenta ajudar na resolução do caso. E quanto mais o tempo passa, mais desesperado o rapaz fica. Até que pessoas ligadas a ele começam a morrer. Gabriel não sabe se foi ou não o responsável, Espinosa também não. E o vento sudoeste segue revirando a vida dos personagens, até que a situação se desvela aos olhos dos envolvidos e do leitor, preso irreversivelmente à trama.

E paro por aqui, pois não quero estragar a sua leitura. Nada de spoilers.

Posto isso, eu termino dizendo que O vento sudoeste é um dos meus livros favoritos de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Nele vemos o autor arquitetando milimetricamente a trama para aumentar o mistério da situação. As idas e vindas dos personagens são manipuladas pelo autor, que guia o leitor pelos labirintos da investigação e dos pontos de vista dos personagens, que se confundem e se desorientam a cada passo que dão.

A ação dos personagens, restrita ao campo do investigativo – portanto não esperem trocas de socos e tiros entre mocinhos e bandidos –, é conduzida de modo que as camadas da vida de Gabriel sejam retiradas, mostrando que ele, os seus desejos e as suas angústias, são o verdadeiro significado da profecia.

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