Reflexões introdutórias às escritas de Marx para a atualidade

Definitivamente não se aprende Marx, simplesmente por que ele é múltiplo. Se assemelha ao caleidoscópio onde dependendo do enfoque é que surgirá a ideia ou definição. A chave do mistério para a leitura de Marx é não estar em um paradigma estático por que ele é movimento. Essa ambiguidade geralmente leva o indivíduo a amá-lo ou deixá-lo.

Até poucas décadas atrás o sujeito homem preocupava-se em pensar o mundo das mais variadas formas, nos tempos atuais o que tem relevância é encontrar caminhos para transformá-lo. Talvez não fosse de sua intenção, mas sua obra dividiu-se em dois tipos de legentes: os marxcianos que apenas saboreiam e refletem com obra e os marquixistas que produziram conhecimento embasados em suas obras.

Sendo assim de forma geral os marquixistas: os intelectuais, políticos ou militantes definiram e redefiniram Marx transformando-o de várias maneiras nos últimos 150 anos. Mas como ele é dúbio, talvez não caberia uma definição baseada em uma causa ou óptica só. Afinal como o mesmo escreveu em sua obra “ de omnibus dubitandum” ou duvide de tudo.

Para os marxcianos ele é instrumento de autoesclarecimento ou conhecimento, um caminho para a realidade através de um método. Que procura conhecer a essência das coisas, mas não uma essência dada e sim um a essência construída. Um saber científico que se embasa pela ciência de todos os processos sociais que geraram o resultado final. Um holofote que revela além da aparência das coisas. Objetivando uma práxis onde método e teoria não separam-se.

Um exemplo claro de tudo isso seria pensar que as formas de conduta da sociedade, não podem ser entendidas por si mesmas ou seja, não debruçar-se sobre o que ela é mas sim no que ela produziu. É preciso muito cuidado nesse estágio, pois essa produção pode dar a entender apenas de cunho material, colocando tudo a perder, pois a valorização das coisas aumenta de forma proporcional a desvalorização dos homens. O detalhe que nos torna “homens” e nos segrega dos demais animais é nossa infinita capacidade de produzir cultura.

A razão, a intelectualidade são produções culturais e elas nos fazem reagir perante a natureza, modificando-a. Quando isso acontece seja um intervenção positiva ou negativa, o indivíduo também se modifica. A quebra dessa relação faz com que o homem não tenha espécie e torne-se coisa. Parece complexo, mas salientando a linha de raciocínio de Pepe Mujica em seu discurso na Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais, que aconteceu em Medellín tudo isso não é um discurso filosófico contra o capitalismo e de apologia a pobreza. É sim um convite a refletir sobre a liberdade, para não entrar na ciranda de roda onde apenas caminha-se desesperado para pagar contas e consumir coisas secundárias. Gastando de maneira rasa o tempo, este que poderia ser aproveitado pelo indivíduo para conectar-se consigo mesmo e com o outro. Parece um trecho de um texto romântico mas isso evidencia e exemplifica um fenômeno conhecido como alienação, onde ele anula-se frente a um objeto sem vida. O indivíduo vira coisa e a coisa ganha vida e assim surgem as desigualdades. Essa liberdade da qual falamos só será plena, quando um indivíduo estiver envolvido na vida pública e coletiva do outro.

Mas afinal , o que nos torna iguais? A nossa capacidade infinita de diferenciar-nos sem ser desiguais. Essa capacidade exercida com propriedade erradicaria de vez a raciologia, que defendeu por 300 anos o abuso de uns pelos outros, a escravidão é o exemplo mais conhecido Esse fato ainda tem reflexos nos dias atuais e embasa ainda algumas condutas da sociedade. Essa divisão hierárquica causou um afastamento da cultura, pois quando o homem produz algo e essa produção não o torna igual aos outros, ele está fora da cultura. Fazendo com que esse indivíduo atravesse uma linha tênue, deixando assim de ser diferente para ser diferenciado dos demais.

Quando exercemos a capacidade de igualdade, entendemos que nossos fenótipos, genótipos e costumes podem ser antagônicos. Mas nossa essência construída é a mesma e assim, girando a roda da vida atingiremos a sabedoria necessária para olhar e interpretar esse caleidoscópio de forma proveitosa, uma ferramenta para subir mais um degrau na evolução como ser humano.

2 thoughts on “Reflexões introdutórias às escritas de Marx para a atualidade

  1. Uma abordagem interessante de Marx. Admiro quem tem uma opinião formada sobre suas escritas. Eu realmente tento, mas contextualizar suas idéias para mim é muito difícil. Mesmo com minhas limitações nas leituras dele, esse artigo me foi de fácil entendimento. Acredito que Marx seja realmente para auto esclarecimento, mas não tinha feito um link de suas idéias ( as poucas que entendi) e a cultura. Deposito minha fé na cultura para construir um mundo melhor. Parabéns pela coragem e iniciativa de refletir ( ou filosofar como diz a coluna) sobre este autor. Afinal como dizia Monteiro Lobato ” um país se constrói com homens e livros”.

  2. Reflexão leve e também com profundidade. É um lamento que nem todos os indivíduos reconheçam a intelectualidade como produção cultural. Fiquei encantado ( de verdade) pelo artigo em seu conteúdo, mas principalmente pela forma de abordagem. Você foi muito feliz no meu ponto de vista! Parabéns!

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