Quatro Estações em Havana: um noir tropical

Que tal uma narrativa de literatura policial noir ambientada em Havana? Quando se pensa em Cuba, as imagens que saltam à mente são polêmicas e, geralmente, ligadas ao regime político, mitificando-o, seja como o inferno na terra ou como o paraíso possível. No entanto, pouco se fala sobre a cultura cubana. Hoje, portanto, falarei sobre a série Quatro Estações em Havana, presente no catálogo da Netflix. Ela é uma adaptação da tetralogia Estações Havana, do escritor Leonardo Padura. Os episódios são baseados nos livros Passado Perfeito (1991), Vento de Quaresma (1994), Máscaras (1997) e Paisagem de Outono (1998), que se passam na Cuba dos anos de 1990, durante a crise que se seguiu após a queda da URSS.

Não traçarei um paralelo entre obra e adaptação, pois seria enfadonho e pouco justo. Quero apenas apresentar o autor e a ótima adaptação da sua obra. O próprio Padura assume o roteiro e ajuda na transformação de um formato para o outro. Os romances foram lançados pela Editora Boitempo, em 2016 (antes disso, três deles foram traduzidos pela Cia. Das Letras), assim com outras obras do autor.

Os romances têm como protagonista o detetive da polícia cubana Mario Conde. Conde é um homem solitário e a vida na polícia não é o que pensara para si. Ele queria ser escritor, mas, no seu caso, o que o impede de realizar o seu sonho não é o regime, mas sim a autocrítica. O personagem exige demais de si e dos seus escritos que, quase sempre, acabam sendo destruídos depois de finalizados. E aqui entra um elemento importante das narrativas espalhadas pelos quatro episódios/livros: poucas pessoas são o que desejaram ser em Cuba.

A liberdade, ou a sua falta, é retratada por Padura sem o verniz ideológico, o autor não é um panfletário pró ou antirregime. Graças aos deuses! A arte pode sim ser política, mas não precisa ser chata, nem sacrificar uma boa história tentando convencer o leitor sobre tal ou qual ideologia. Padura nos mostra que a precariedade da existência não está ligada à precariedade da vida material. A pobreza habanera está lá, os símbolos do regime também (pensem num desenho do Che Guevara exposto numa delegacia!), mas a falta de liberdade vem das circunstâncias em que os personagens são jogados pela aleatoriedade da vida. As histórias são sobre as pequenas e grandes tragédias cotidianas e essa é a sua força. Os personagens são os pilares da obra: da madame presa a um casamento infeliz, passando por um homossexual rechaçado pela família e terminando num escritor censurado, todos que circundam Conde sofrem porque seus sonhos colidiram com a realidade.

Entre uma e outra busca pelas ruas depredadas de Havana, o detetive encontra nos três amigos de juventude o seu porto seguro. Eles foram criados sob o auge do regime cubano e fica claro que pagaram o alto preço que lhes foi exigido. As suas conversas, regadas a rum, rock e música caribenha, são os momentos em que temos um vislumbre da alma cubana, que devaneia entre o niilismo tropical e a esperança romântica, típica de  alguns povos latino-americanos. Talvez Skinny seja o amigo que melhor simboliza a geração de Conde, que é também a de Padura. Ele se tornou um soldado e, ferido durante a participação cubana na guerra de independência de Angola, parou numa cadeira de rodas. Os amigos, ainda que não digam isso de forma clara, acreditam que seu futuro foi sacrificado em nome de duas causas que deram em nada.

As histórias da série não retratam o apenas clima cubano, do inverno ao outono, mas, também, as mudanças em Conde. Os ventos sopram cada vez mais fortes, até se transformarem no furacão que alcança a ilha caribenha e a vida do detetive.

Ventos de Quaresma é sobre a investigação do homicídio de uma professora no antigo colégio em que Conde estudou. Na medida em que investiga o assassinato, ele descobre não somente o matador, mas também que a vítima era mais do que aparentava ser. No fim das contas, Conde não descobre somente quem foi o assassino, mas, também, que a torpeza dos antigos preconceitos se mantém viva e que não há ideologia que apague isso.

Passado Perfeito é sobre a investigação do assassinato de um grande empresário. Aqui entra um elemento importante para compreender Cuba: a pobreza atinge apenas aqueles que estão fora dos quadros do regime. O fato é quase um tabu, pois pouco se fala sobre ele. O silêncio encobre o rancor. O caso remete aos tentáculos da burocracia cubana e às relações empresárias duvidosas. Não bastasse isso, a viúva do sujeito, que é um amor do passado, é a principal suspeita do crime.

Em Máscaras, Conde investiga a morte de um jovem homossexual, filho de um diplomata cubano. Na trama, o detetive se vê diante do submundo gay cubano, que existe e é fervilhante, apesar do evidente machismo latino. Para desvendar o crime, Conde busca a ajuda de um grande dramaturgo, tendo com ele interessantes conversas sobre arte.

Paisagem de Outono, marca a chegada de um furacão à ilha, fato que coincide com o fim da tetralogia. Aqui vemos um Conde decidido a sair da polícia, mas que é tragado para um último caso: o assassinato de um ex-funcionário público envolvido com o sumiço de obras de arte durante o período da revolução.

Para finalizar, eu recomendo algo muito simples: leiam os livros e vejam a série. Em que ordem? Não importa. As narrativas são poderosas e oferecem prazer tanto na leitura quanto no audiovisual.

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Abraços e até o próximo artigo.

 

 

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