Por que você gosta de ler terror, cara?

A grande pergunta que qualquer fã da literatura de terror/horror/suspense já ouviu pelo menos uma vez na vida:

Por que você gosta dessas histórias?

Antes de tudo: Para esse artigo, vou me referir aos gêneros literários do terror, horror, suspense e similares como “Literatura do Medo” ou “Histórias do Medo”. Minha opção por usar esse termo é pra evitar esbarrar nos debates semânticos atuais que procuram colocar cada um na sua prateleira. Como o objetivo hoje é outro, vamos deixar isso quieto… Por enquanto.

Profissionais em diferentes áreas do saber (neurologistas, psicólogos, antropólogos, professores e por aí vai) possuem o medo como campo de estudo. Além das questões biológicas, onde o medo possui implicações negativas à saúde e ao bem estar, existe uma produção considerável (alguns disponíveis na internet!) de trabalhos sobre sua função fisiológica, social, pedagógica, cultural. Perguntas muito interessantes norteiam alguns desses estudos. Entre elas, por que existem pessoas que gostam tanto dessa vertente?

Muito mais do que simples entretenimento, as Histórias de Medo (sobrenaturais ou não) sempre tiveram um papel bem marcado na sociedade. Desde a época em que os contos eram passados de maneira oral e ao redor de fogueiras, forneciam alegorias e tentativas de explicação para fenômenos ainda não compreendidos (o fogo-fátuo, por exemplo), falavam sobre consequências terríveis para aqueles que transgredissem algo (seja indo contra um preceito comum ou visitando um local de acesso proibido), serviam como metáfora para algum grande medo daquele grupo, etc.

Além do caráter pedagógico, outros fatores faziam com que um determinado grupo de pessoas saísse mais satisfeito desse encontro do que outros. O tempo passou e as histórias de fogueira se transformaram e foram impressas, filmadas, colocadas em blogs e similares na internet, viraram lendas urbanas, blockbusters, best sellers, etc.

Mas por que existem fãs das Histórias e da Literatura do Medo? Vamos ver algumas das explicações dadas  de maneira bastante resumida.

Para aqueles que se lembram das aulas de biologia no pré-vestibular, o medo e o stress dele resultante são esquemas adaptativos de defesa que deixam o indivíduo pronto para responder quando se encontram com uma situação ameaçadora ou potencialmente ameaçadora. Esses esquemas ajudaram nossos antepassados a enfrentar situações de perigo. Quando um homem das cavernas se deparava com um dinossauro (descubra o erro nessa frase), seu corpo se preparava para a situação de lutar ou fugir, liberando dopamina, e adrenalina no sangue. Quando a situação de perigo é transposta (se o homem das cavernas consegue fugir ou se percebe que ele e o dinossauro não existiram na mesma época), a produção dessas substâncias é suspensa pelo corpo. Nesse meio tempo, a alta da dopamina no sangue já fez efeito: gerou estado de alerta, aumentou a atenção, o coração já acelerou aumentando a irrigação sanguínea nos músculos, as pupilas já estão dilatadas. Com a suspensão do estado de alerta, o sistema libera substâncias diferentes, os opióides (endorfina), que relaxam, acalmam. Essas liberações combinadas quando acontecem de forma breve causam bem estar.

Claro que o inverso também causa problemas. Como disse Paracelso (1493-1541), a diferença entre o veneno e o medicamento é a dose. Quando essa liberação de dopamina acontece por períodos mais longos de tempo, reações adversar começam a aparecer (fadiga, confusão metal e outras coisas não tão legais).

Sempre que lemos uma história capaz de nos deixar arrepiados, roendo as unhas (em sentido figurado ou literalmente), tensos ou nervosos, tomamos nossa dose homeopática de medo. Esse tipo de contato acontece de uma forma segura, sem que exista uma ameaça real. O medo, a apreensão, a sensação de perigo, tudo isso está presente juntamente com todas as sensações, mas o objeto do medo existe apenas em nossas mentes. Como quando lemos sobre alguém que foi enterrado vivo e acabou de acordar dentro de seu caixão ou sobre um homem cruzando sozinho uma floresta carregando o cadáver do próprio filho.

Outras teorias relacionam uma maior sensibilidade à dopamina aos apaixonados por sentir medo.

Além disso, outras vertentes acreditam que o contato com Histórias do Medo sirvam como forma de oferecer uma “cara” aos monstros que, de forma figurada, podem assombrar nosso interior, causando, entre outras coisas, angústia. O ato de “trazer o monstro para a luz” acabaria com o sentimento.

Mas é claro que não dá pra simplificar tudo colocando a “culpa” exclusivamente na biologia pela existência dos fãs de histórias do medo. Outros fatores podem influenciar a existência de amantes do terror. A experiência pessoal conta muito, assim como o ambiente onde crescemos e vivemos, a visão religiosa, etc etc etc.

Outro ponto interessante. Pessoas que enfrentam situações difíceis juntas acabam, ao final do processo, passando por um estreitamento de laços, como se fosse uma espécie de camaradagem entre veteranos de guerra. Isso também acontece com pessoas que assistem filmes de terror juntas e com pessoas que foram “afetadas” pela mesma Literatura de Medo. Quando você conversa com aquela pessoa que também ficou apavorada com Pennywise perseguindo os remanescentes do “Clube dos Perdedores”, em algum lugar existe um click.

Pra terminar, e aproveitando o gancho, Stephen King também tem uma explicação para aqueles que gostam das Histórias e da Literatura do Medo. Segundo ele, nós criamos horrores fictícios para que eles nos ajudem a suportar os horrores verdadeiros.

8 Replies to “Por que você gosta de ler terror, cara?”

  1. Elisangela disse:

    Amei, está de parabéns!

  2. Elis disse:

    Uauuu. Arrasou. Amei a aula de Biologia e Fisiologia. O medo mexe mesmo com nosso corpo e nossa mente. Até breve.

  3. Rândyna da Cunha disse:

    “Minha opção por usar esse termo é pra evitar esbarrar nos debates semânticos atuais que procuram colocar cada um na sua prateleira.” Ótima colocação. Como sempre seus textos fazendo sucesso por aí. Gostei muito da referência a Paracelso.

  4. Renata Maggessi disse:

    Arrasou! Amei a explicação. Eu sempre uso a frase de King para explicar o motivo de eu gostar tanto de ler – e escrever – histórias de terror. Parabéns!

    • Hedjan C.S. disse:

      Olá! Com certeza o King, além de um grande escritor, é um modelo de inspiração para muitos de nós.

      E, que me desculpem os outros autores e os outros gêneros literários, mas quando começamos a levar esses medos imaginados (nas nossas cabeças) para as cabeças dos nossos leitores… que momento mágico rsrs

      Obrigado pela visita!

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