Por que ler poesia?

Inicialmente, quando pensamos em poesia, lembramo-nos das aulas de literatura do ensino médio em que a professora, ou professor, declamava as poesias presentes nos livros didáticos quase sem olhar a página. E o que dizer daqueles que possuíam vários poemas memorizados e os recitavam com uma paixão avassaladora?! E nós, meros alunos, olhávamos aquela demonstração de amor flamejante, melancolia crônica, tristeza incurável, representada em estrofes, versos e palavras sem entendermos nada, mas sabendo que aquilo era de uma profundidade quase abissal. E, mesmo sem entender, sabíamos que aquilo era muito bonito. Por isso, líamos o poema várias vezes. Alguns versos faziam sentido; outros, não. Mas também, vez ou outra, encontrávamos poemas cujos sentidos pareciam mais abertos. Quem nunca leu um poema Moderno e sentiu que era mais ‘’fácil’’ de entender do que um poema Barroco, Romântico ou Simbolista? Isso é evidentemente natural já que, com o advento do modernismo, os poetas adeptos desse novo movimento literário inspirado nas vanguardas europeias decidiram que a literatura e a arte deveriam ser livres e fugirem dos tradicionais métodos de produção artística. A arte e a literatura deveriam ser de acesso a todos e não somente a uma classe privilegiada socioeconomicamente. Na literatura, a linguagem passou a ser mais simples e coloquial, aproximando-se da realidade do povo. A poesia, de um modo geral, quebrou elos com as tradicionais formas regidas pelas rimas, mesóclises, ênclises e períodos que não seguiam a ordem natural da língua (sujeito – verbo – predicado). Desse modo, temos poetas como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles que, com uma linguagem mais simples, produziram poemas de um caráter tão profundo quanto belo.

Jean-Paul Sartre, filósofo e escritor francês, representante da corrente existencialista, afirma em seu livro O que é a literatura? que a prosa é o império dos signos. Ou seja, para construir, dar forma às suas ideias, a prosa utiliza os signos linguísticos. Ora, nós mesmos quando estamos produzindo texto (seja na fala ou na escrita) fazemos uso dos signos para representar nossos pensamentos. Nós lidamos com os significados. Sendo um pouco mais perspicazes, nós, seres humanos, apenas somos capazes de construir nosso pensamento porque temos o domínio de uma linguagem e, a partir dela, atribuímos sentido às coisas do mundo. Então, para Sartre, enquanto a prosa se serve de palavras a poesia as serve. A poesia foge da chamada ‘’linguagem utilitária’’ que é aquela que usamos cotidianamente para nos comunicarmos. O poeta se afasta da ideia de linguagem-instrumento, ferramenta para a construção de sentidos.; ele não vê a palavra como algo que representa alguma outra coisa do mundo, mas como uma dessas coisas; ele considera as palavras como coisas e não o que elas representam. Por isso, na poesia, vemos tantos jogos com as palavras. Elas são usadas além do que apenas significam. Toda a sua dimensão é usada na construção da poesia. Por isso que a tradução de textos poéticos é perigosa. Cada palavra possui sua própria carga semântica e nem mesmo seu sinônimo tem carga igual. Não existem sinônimos perfeitos. Sabendo disso, o poeta escolhe cuidadosamente a palavra certa para integrar aquele texto. Se nem mesmo os sinônimos de uma mesma língua têm sua carga de sentido iguais, imagine duas palavras de línguas diferentes!

Um pouco confusa, essa ideia? Sei que sim. Mas bem interessante, não é mesmo? O que acontece é que o texto poético é criado para ‘’desautomatizar’’ a linguagem. Diferente do texto em prosa, em que o leitor é tomado por um fluxo e embarca numa leitura tão leve como se fosse puxado por uma corrente oceânica, na poesia, leitor não possui a corrente. Ele deve remar com a própria força de seus braços para alcançar o entendimento do que o autor está dizendo naqueles versos. A poesia é um desafio da linguagem. A leitura de poesia é um desafio que deveríamos aceitar regularmente pois a nossa capacidade leitora sai do piloto automático e forçamos nosso cérebro a leitura e uma compreensão mais aguçada.

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