Por que ler Literatura Policial?

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Washington Soares

Por, Washington Soares

Por que escolhi Literatura Policial? Afinal, eu poderia escrever sobre outros gêneros literários, mais rebuscados e mais festejados pela crítica especializada. Bem, a Literatura Policial, como toda e qualquer forma de expressão artística, é um meio de compreender o mundo em que vivemos.

A morte, o crime e a violência são temas frequentados pela arte em todas as épocas e povos. Mesmo sendo um tabu em muitas religiões e sociedades (a nossa é um grande exemplo), a morte está presente em todas as mitologias conhecidas, oferecendo explicações, mais ou menos coerentes, para o mistério da vida.

O assassinato, por sua vez, é uma proibição comum a todos os povos. Não matar os seus – o mesmo nem sempre se deu para com os outros – é um forte instrumento de controle social. Mas, como é possível ver ao longo da história, a matança segue solta e nós nos vemos diante da morte e da violência todos os dias.

E por que não escrever sobre o tema?

O crime e a morte não são novidades na literatura. Para os escritores, eles têm inúmeras funções, éticas ou estéticas. Citarei apenas dois clássicos: Édipo Rei, de Sófocles, e MacBeth, de Shakespeare. Mas, para o que nos interessa, a história da Literatura Policial remonta ao século XIX. Seus estudiosos apontam Os Assassinatos da Rua Morgue, de 1841, escrito por Edgar Allan Poe, como obra seminal. A partir de então, uma série de autores trabalharam e alargaram as suas fronteiras, tanto do ponto de vista estético quanto mercadológico. A Era de Ouro do romance policial se deu no período entre as duas guerras mundiais, tendo em Agatha Christie o seu maior expoente.

Inicialmente, a crítica classificou o romance policial como uma degeneração da literatura, como uma forma de escapismo da realidade, como subproduto de entretenimento de massa e nada mais. Acusaram o gênero de estar preso a fórmulas e a formatos que pouco se alteram ao longo do tempo. Atualmente, entretanto, já não se olha de forma tão negativa para o romance policial e muitos o reconhecem como expressão literária legítima. Entre o público, o gênero é cada vez mais bem aceito, basta observarmos a quantidade de filmes, livros e séries, que são produzidos às dezenas, todos os anos, em muitos países.

Quer um exemplo? Agosto, de Rubem Fonseca, lançado em 1990.

A história aborda o assassinato de um milionário no Rio de Janeiro, que, por sua vez, é investigado por um policial, o comissário Mattos. Até aqui ela nos parece bastante simples, até repetitiva. Quantos livros têm exatamente o mesmo enredo? Mas, se tomarmos as premissas como base de julgamento do gênero policial, ou de qualquer outro gênero literário (quantas histórias já foram narradas sobre amores proibidos, aventuras num lugar exótico, relacionamentos familiares difíceis, ambição por poder e dinheiro?), nós fracassaremos em compreender a sua força.

O livro se chama Agosto porque a trama se passa no tumultuado mês de agosto do ano de 1954. Se você se lembra das aulas de História, sabe que foi no dia 24 desse mesmo mês que o então presidente Getúlio Vargas se matou. O assassinato investigado se confunde com o turbulento mundo da política daquele ano.

As ligações escusas entre os milionários, os políticos, os militares, os bicheiros, os assassinos de aluguel e a imprensa sensacionalista da época são abordadas de forma nua e crua. O fanatismo político, a guerra entre Getulistas e Lacerdistas, também estão presentes. Os personagens, atormentados e complexos, viscerais e trágicos, estão lá, presos ao seu destino, remando contra a maré, ou, pelo menos, tentando se agarrar a algo, para não serem tragados pela enchente da história. E é claro que eles fracassam. Não por acaso Mattos, o protagonista, é um grande admirador de ópera e a menção à obra O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, é recorrente.

Agosto é um clássico da literatura nacional, assim como Rubem Fonseca é um gigante entre os nossos escritores. O livro é apenas um dos inúmeros exemplos que poderia citar para embasar a minha defesa da leitura do gênero policial e de como ele serve de base para a compreensão do mundo em que vivemos. Do presente e do passado.

Dono de uma prosa crua e áspera, Rubem Fonseca, em seus livros e contos, disseca com maestria a sociedade brasileira e nos mostra suas vísceras. O escritor e as suas obras receberam inúmeros prêmios dentro e fora do Brasil. Muitos dos seus romances e contos foram adaptados para o teatro, televisão e cinema.

Curiosidade e repulsa: eis o fascínio que a morte e a vida exercem. O romance policial tem acesso aos recantos mais sombrios das sociedades. Por meio dele o autor e o leitor exploram aquela zona cinzenta entre a barbárie e a civilização, entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. No fim das contas, a literatura policial merece ser lida porque toca em temas universais e nos coloca diante do lado mais obscuro do ser humano.

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2 Replies to “Por que ler Literatura Policial?”

  1. Elis Medeiros disse:

    Amei o artigo, as dicas de livros e fatos históricos.
    Ler é sempre cultura.
    Parabéns.

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