Os caminhos Mandela

A cultura nada mais é que o código de conduta de um povo, ou seja, o modo de agir e se comportar de indivíduos que vivem em coletividade. Enfim símbolos e valores compartilhados. Essa definição salienta que os aspectos culturais de uma sociedade são aprendidos e não herdados, sendo assim o curso cultural vai ser traçado de acordo com quais símbolos e valores  os membros da sociedade compartilham, num cenário onde a comunicação e cooperação são muito importantes.

Quando um sujeito faz essa leitura acima, somado com características como teimosia e tenacidade é capaz de transformar um movimento cultural em uma corrente com fortes impactos ideológicos e políticos. Certamente tivemos vários desses indivíduos na história, mas hoje quero me restringir somente a um deles: Nelson Mandela. Um simples homem  que dedicou a vida a mudar o status quo, ou seja, o estado dos fatos, das situações e das coisas independentemente do movimento vivido. O movimento em questão para Mandela era a negritude, que ele entendia como reação cultural ao escravismo ou qualquer tipo de dominação. Essa definição é importante para evitar que a especificidade africana seja reconhecida como resultado de uma determinação biológica, que remete ao processo histórico de que a humanidade seria formada por três grupos: o branco, o negro e o amarelo, teoria esta que produziu o discurso racista.

Nelson em conjunto com outros militantes negros ajudaram a inserir no movimento valores como solidariedade, união, promoção cultural e social. Sujeitos negros que foram se politizando, não falo de política partidária mas sim como uma ferramenta para gerir a vida, revertendo a stagnação da comunidade negra e formando um pensamento político conjunto. Dessa forma os sujeitos negros não seriam mais assimilacionistas do status quo dos brancos, mas sim criadores do seu próprio futuro. Esse crescimento como sujeito negro foi duro e contínuo para Mandela. Durante os 27 anos em que ficou preso aprendeu autocontrole, disciplina e foco. Antes era um jovem inflamado e que perdia a razão facilmente, mas mesmo depois de retomar sua liberdade nunca perdeu a suavidade e sensibilidade da juventude, apenas incorporou outros elementos como coragem e autodisciplina a sua personalidade para criar uma casca mais dura e invulnerável de proteção.

Todas as suas experiências e aprendizados o transformaram em um homem de muitas contradições, de casca grossa mas que é facilmente ferido, , sensível para com seu semelhante, não pisava em uma aranha mas foi o primeiro comandante do Braço Armado do Congresso. Um sujeito ávido por agradar, mas sem temores de dizer não, usava talheres de prata mas não se incomodava em comer com as mãos. Sua chefia era democrática, convencia ao invés de ordenar, mas se fosse necessário ordenava sem constrangimento. Quando não queria falar sobre determinado assunto, simplesmente desviava a atenção para outra coisa, mas sempre defendia o que acreditava. Seu senso de justiça ou intolerância a injustiça era o que instigava Mandela.

Estrategista principalmente para liderar. Sabia quando liderar na frente, quando deixar que os outros o vissem liderando ou exercendo uma liderança na retaguarda. Em sua mente estava claro que se fosse sempre o centro das atenções, o seu objetivo se perderia facilmente e até morreria, para evitar que isso acontecesse, permitia que em algumas ocasiões outros liderassem em frente. Outra estratégia era aprender com quem tinha verdadeira competência no assunto e nunca ficou constrangido em pedir explicação sobre qualquer assunto. Com essa atitude, além de estar pedindo conselhos e aprendendo com as pessoas que considerava importantes, estava dando poder a esses sujeitos.

Quando se tornou presidente, Mandela não perdeu nenhuma de suas características, ao contrário, transformou-as em habilidades e ao invés da força para administrar usou a persuasão. Foi um governo no modelo9 africano de liderança, baseado no conceito de umbutu. A tradução literal desse conceito seria que somos humanos por intermédio da humanidade dos outros. Traduzindo para a política, é a idéia de que os sujeitos recebem o poder dos outros. Uma linda trajetória de vida que pode ser saboreada no livro de Richard Stengel, Os caminhos de Mandela: lições de vida, amor e coragem, lançado em 2010 pela Editora Globo.

 

 

 

 

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