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O Romance Policial Hard-Boiled e o Policial Noir

A morfologia da ficção policial esteve intimamente ligada ao contexto histórico das sociedades capitalistas, não só como produto, mas, principalmente, como seu reflexo. O século XX, no que toca aos grandes acontecimentos, colocou em xeque as utopias do século XIX. Estas, independentemente dos caminhos, apontavam, invariavelmente, para um período em que toda a humanidade viveria em harmonia.

A ciência, cada vez mais, tomava o espaço que antes era dedicado à religião. Aquela, que pretendia substituir esta, não cumpriu a promessa de redenção da humanidade. As recentes descobertas da psicanálise mostravam que o homem era um ser complexo e o inconsciente uma força poderosa que influenciava o comportamento da espécie. Freud nos apresentou um homem que está em constante luta contra as forças destrutivas e antissociais inerentes à sua natureza. A história do homem é a história da eterna luta entre a civilização e a selvageria. As ciências sociais perceberam que as suas teorias não eram tão confiáveis quanto achavam.

O estopim da loucura que regeria todo o século XX, em minha humilde visão de historiador, foi a Primeira Guerra Mundial. Iniciada em 1914, terminou em 1918, mas o mal-estar do pós-guerra se manteve. O mundo prendera o fôlego e ficou sem ter onde se apoiar. Atônito, permaneceu em estado de letargia, ansiava por algo melhor, só não se sabia o quê.

As décadas de 1920 e 1930 foram marcadas pelo esplendor e a decadência do capitalismo. À pior crise econômica da história, seguiu-se a Grande Depressão. O avanço da urbanização tinha como contrapartida a complexificação da criminalidade. O submundo do crime era o outro lado da moeda da pujança econômica dos EUA, e indispensável para o seu funcionamento. Era o lado negro do American Way of Life.

A Crise de 1929, a ascensão dos regimes totalitários de direita e de esquerda, o genocídio eugenista da Alemanha Nazista, os massacres dentro da URSS, a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e depois a Guerra Fria (1945-89). A realidade nua e crua se deslocou – e muito – do projeto da Modernidade.

As vanguardas artísticas já miravam outras direções para além daquelas oferecidas até então. Os loucos anos 10 e 20 viram nascer e crescer o futurismo, o cubismo, o dadaísmo e por aí vai. Cada uma dessas tendências, a seu modo, apontavam para a busca de novos sentidos da vida. Ou, em alguns casos, a ausência de sentido. A Indústria Cultural ganhava cada vez mais espaço e status de influenciadora dos comportamentos e das mentalidades. Mais adiante a televisão se transformou no Oráculo do século XX.

E é nesse contexto – aqui muito reduzido, claro – que a ficção policial se transforma e vê nascer um novo filho, uma nova tendência: o que alguns críticos chamam de Hard Boiled e outros de Romance Noir. Não cabe aqui uma discussão teórica se os dois são ou não a mesma coisa. Joaquim Rubens Fontes, em seu livro O universo da ficção policial (Ed. Galo Branco, 2012), trata as duas modalidades como distintas, ainda que aponte o Noir como uma derivação do Hard Boiled.

A ficção policial Hard Boiled, surge e ganha visibilidade nas décadas de 1920 e 1930, nas revistas de Pulp Fiction nos EUA. O gênero se desenvolve paralelamente ao romance policial de enigma, apresentando-se como um contraponto as histórias detetivescas de então. Autores hoje indispensáveis para a literatura policial, tais como Raymond Chandler e Dashiell Hammett publicaram seus primeiros escritos nessas revistas.

No Hard Boiled, e mais adiante no Noir, a violência é uma constante. Se antes o detetive trabalhava num tempo posterior ao crime, tendo a sua integridade física garantida, nessas narrativas todos são vítimas em potencial. A perseguição ao assassino se torna o centro da história. Não há segurança, a tensão é permanente. O mundo do crime e a sua brutalidade a todos alcança, indistintamente.

O detetive, que no romance de enigma era, em geral, um aristocrata ou um excêntrico, agora é apenas mais um trabalhador, um parafuso mal encaixado nas engrenagens de uma sociedade impessoal e massificada. Humano, demasiado humano, brutalizado e cheio de defeitos. Muitos deles são brigões, mulherengos, alguns alcoólatras, e que muitas vezes agiam às margens da lei. O detetive de agora é um cara como outro qualquer, não é a imagem do herói épico. É, na melhor das hipóteses, um anti-herói.

O que se vê nessas novas modalidades é quase uma insurgência contra o romance de enigma, principalmente no Hard Boiled. Mas não sejamos ingênuos, não houve uma total ruptura. O mistério, que ainda existe, cede espaço ao drama, aos conflitos pessoais, à complexidade de relações entre os personagens, bem como a sua profundidade emocional e às mazelas sociais.

O romance de enigma era um exercício de análise e dedução, quase um duelo entre detetive e criminoso, entre narrador e leitor. Estes elementos não são importantes na ficção policial Hard Boiled/Noir. Ainda que este não fosse o seu principal objetivo, as novas modalidades esbarravam – voluntária ou involuntariamente – na denúncia da realidade social.

O crime, que antes representava a quebra da harmonia social, agora é inerente à ordem do mundo. O sexo, o álcool, as drogas, os mafiosos, as mulheres fatais, os pequenos criminosos, os proxenetas e as prostitutas, os policiais e as autoridades corruptas e mais uma infinidade de pobres diabos estão presentes nos romances Hard Boiled e Noir.

Para além dos holofotes de Hollywood e das colunas glamourosas dos jornais, as cidades, sedutoras e maliciosas, sujas e escuras, tinham em seus becos mal iluminados uma potencial toca para um predador. O espaço urbano apresentava-se com uma selva de pedra onde apenas uma lei vigorava: a lei do mais forte.

Nos romances Hard Boiled e Noir não há espaço para redenção.

 

Comments:
  • Lisa Hallowey
    15 de abril de 2017 at 19:40

    Perfeito! Precisamos conversar depois, quero indicações de livros policiais.

  • JMCosta
    15 de abril de 2017 at 20:19

    Parabéns pelo artigo, Washington. Acabei de confirmar que o meu thriller urbano tem muito do policial noir. Forte abraço.

  • Pingback: As Quatro Estações em Havana: um noir tropical
    13 de setembro de 2017 at 18:11

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