O personagem: maniqueísmo, o que é isso?

Olá leitores!
Outro dia eu estava conversando sobre determinados personagens e suas profundidades com uma colega de mestrado, discordávamos em algumas coisas, mas em uma, pelo menos, estávamos de acordo: os personagens precisam de profundidade.
Lá na graduação, em uma aula de teoria literária que estava tratando de idade média, conheci o conceito de “maniqueísmo” que dividia o mundo e todo o restante em duas partes: o bem e o mal (na verdade o conceito é romano, mas foi muito empregado na idade média e é o exemplo que eu vou usar aqui). Nas histórias mais antigas que conhecemos, sempre o que é belo é bom, corajoso, gentil e agradável, enquanto o que é feio é mal, ardiloso, covarde e desagradável. O vilão, nesse conceito, sempre é aquela bruxa feia, o trasgo horroroso e todos os outros monstros, pois não tem qualidades, só defeitos. Já os mocinhos precisam ser lindos e puros, sem nenhuma mancha, incapazes de cometer qualquer ato errado e sempre fazendo o bem. Mas, sabemos que não é exatamente assim, não é? Uma grande ruptura com o maniqueísmo já foi feita por Victor Hugo (uma das minhas grandes paixões literárias) em 1482 com a obra “Notre Dame de Paris” que a maioria de nós conhece através de adaptações como o simpático, ou não, desenho da Disney. Entretanto, a obra tem uma profundidade muito maior: Quasimodo é sempre retratado como um monstro, terrível ao olhar, mas com o coração puro e de boa intenção, já Phoebus, apesar de sua boa aparência, engana Esmeralda para que ela seja enforcada (desculpem por estragar a infância de vocês, caso não conheçam a versão original). Frollo, homem da Igreja que deveria ser a encarnação de todo o bem, é dominado pela luxúria, pela arrogância e por desprezar os pequenos. Esmeralda, que é pagã e cigana, não deixa de ajudar aqueles que mais precisam. A tragédia mostra que nem todos são aquilo que aparentam em um primeiro momento, mas ainda temos o vilão que somente é vilão e o herói que é herói, mas e nós?
Cada vez mais vemos, felizmente, personagens que não são uma única coisa, que tem várias matizes, razões e comportamentos que não são esperados tanto do vilão quanto do herói. Todos conseguem pensar em pelo menos um exemplo de um vilão que amamos e que conseguimos entender a sua dor, o que ele sofreu e o que acabou fazendo com que ele se tornasse do jeito que é. Assim como já perdemos a paciência algumas vezes com mocinhos que fazem erros em cima de erros simplesmente porque pensaram errado, porque foram egoístas ou algo do gênero. É normal, oras. Nós gostamos de pensar que somos bons, mas sabemos que de vez em quando temos atitudes erradas, por que os nossos personagens não serão assim também? E existe alguém completamente ruim? Que não tenha sequer uma qualidade? Até Hitler era vegetariano e pensava nos animaizinhos (por mais que fosse cruel e sádico com o resto da humanidade e um real monstro encarnado).
Então, o que venho dizer essa semana é: vamos achar a profundidade de nossos personagens, os seus defeitos, as suas qualidades, no que eles falham e no que eles acertam. Eles serão bem mais reais assim. Espero por vocês na semana que vem com mais um artigo!

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