O nascimento da ficção policial

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Em destaque!Washington Soares

Olá, caros leitores, anteriormente defendi o gênero policial, expondo meu ponto de vista de como ele nos serve não só para o entretenimento, mas também para a compreensão das nossas sociedades. Aqui, e nos próximos escritos, pretendo abordar, de forma panorâmica, o nascimento e o desenvolvimento do romance policial, assim como analisarei alguns autores e obras clássicas.

A arte não existe separada do seu contexto histórico, ao contrário, ela é seu reflexo. Para entender por que a Literatura Policial surge no século XIX é preciso se debruçar brevemente sobre aquele período conturbado.

O século XIX foi, para boa parte dos países europeus, o século da Revolução Industrial. A época foi marcada pelo rápido desenvolvimento tecnológico, pelo êxodo rural e pelo surgimento do fenômeno urbano. Era o nascimento da sociedade de massas.

As cidades, labirintos anárquicos, sujos e superlotados, abrigavam uma miríade de classes e pessoas, algumas bem e outras mal inseridas na nova ordem. Submetidos a um regime de trabalho e de vida brutais, os operários eram expostos ao lado sombrio das sociedades industriais. Quem não se integrava era empurrado para a marginalidade. Como resultado assistiu-se ao alto índice de suicídios, de alcoolismo, de prostituição, de roubo, de violência e de assassinato, grandes feridas nas entranhas do corpo social.

Ao caos proveniente da urbanização descontrolada e do aumento vertiginoso da criminalidade, o Estado respondeu com a monopolização do exercício da violência, com a organização de códigos criminais, com a construção das prisões e com a criação de uma instituição repressora, que objetivava a manutenção da ordem: a polícia. Assim nasceram os personagens principais das histórias policiais: o criminoso e o policial/detetive.

O ambiente intelectual estava pautado no Cientificismo. Resumidamente: a crença na ciência e no método científico como base de exame, compreensão, explicação e intervenção na natureza – inclusive na sociedade, que era vista pelos primeiros teóricos sociais como um “organismo vivo”. Não é por acaso que no período nasceram as Ciências Sociais – incluindo aí a Criminologia.

Outro fato importante a ser mencionado é o nascimento da imprensa da massa. Jornais, folhetins e os penny dreadfuls ­(publicações periódicas e com material de baixa qualidade, contendo histórias de monstros e de assassinatos e que eram consumidos pela classe trabalhadora e eram vistos com desprezo por muitos intelectuais da época) abriram caminho para a apreciação de uma literatura ligada ao lado negro da humanidade e da sociedade industrial.

O cenário estava posto, os fatores estavam ali, “passeando livremente”, como que esperando alguém para juntá-los e dizer: “Isto aqui dá uma história. Ou melhor: várias histórias. E das boas.”. E claro, para a nossa felicidade, alguém fez isso.

Apesar de todas as conjunções sociais, políticas e culturais terem surgido na Europa, curiosamente foi um autor estadunidense quem inaugurou o gênero policial: Edgar Allan Poe, com o conto Os Assassinatos da Rua Morgue, em 1841.

A vida de Poe em si já daria um romance complexo. Nascido em 1809, ficou órfão muito cedo. Seu pai, o ator David Poe Jr., abandonou a família de três filhos em 1810, quando a esposa, e também atriz, Elizabeth Arnold Hopkins Poe estava grávida da caçula. Ela morreu em 1811 e Edgar foi adotado por uma família rica, que lhe deu boa educação. Chegou a cursar a universidade da Virgínia, da qual foi expulso por causa do comportamento boêmio.

Entre 1827 e 1831 esteve mais ligado ao militarismo do que à escrita. Depois de uma curta passagem pelas forças armadas, ingressou na Academia Militar de West Point, da qual foi expulso, supostamente por insubordinação, em 1831.

De 1831 a 1849, ano de sua morte, Poe trabalhou como poeta, contista, editor e crítico literário. A temática das suas obras girava em torno do lado sombrio da vida e do ser humano. A ele não se pode apontar apenas a paternidade da ficção policial, mas também contribuições nos gêneros de terror, horror, mistério, suspense e ficção científica. É tido por muitos críticos como o criador do Conto enquanto gênero literário. Em 1846, com a Filosofia da Composição, sua obra “teórica”, aponta a necessidade do trabalho árduo e meticuloso do escritor, a fim de criar o impacto desejado no leitor.

Apresentado o homem, no próximo artigo apresentarei a obra, o conto Os assassinatos da rua Morgue.

 

 

3 Replies to “O nascimento da ficção policial”

  1. Flávio Karras disse:

    Parabéns pelo texto.

  2. Taciana disse:

    Super interessante, adorei!
    Parabéns.

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