> Em destaque!  > O Horror segundo Nelson Rodrigues

O Horror segundo Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues, teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista, cronista de futebol, tricolor apaixonado e… Mestre do Horror?

O impacto da obra do autor, tanto da dramaturgia quanto na prosa, é inegável.  Sua obra realista criticava a sociedade e suas instituições, especialmente o casamento. A peça Vestido de Noiva, sua obra prima, foi responsável por, entre outras coisas, levar gírias para as falas dos personagens, algo bastante transgressor para a época. Com isso, o autor procurava retratar a vida como ela realmente é, sem os eufemismos ou floreios habituais. Além disso as questões sexuais  — incesto, estupro, abuso, parafilias, homossexualismo, etc — sempre foram uma peça chave na obra de Nelson Rodrigues. Imagine só sua relação com a censura na época. “Anjo Negro” e “Álbum de Família”, outras de suas peças, inclusive foram  censuradas.

Só que, além disso, existe uma outra vertente que eu, como leitor, passei a admirar muito em Nelson Rodrigues: sua face oculta de mestre não nomeado da literatura do horror. Mas não o horror povoado por seres sobrenaturais, fenômenos paranormais, demônios ou coisas do tipo. O horror em Nelson Rodrigues é algo muito mais próximo de nós e, talvez por isso mesmo, muito mais assustador. Nelson Rodrigues nos fala de monstros humanos, que possuem empregos, famílias, hobbies e que acabam por enredar outras pessoas em suas histórias que, salvas raríssimas exceções, acabam de maneira trágica. Torturadores sádicos, relacionamentos familiares abusivos, pessoas que enlouquecem, o mal que se oculta na falsa inocência, mães capazes de matar os filhos… Essas e outras coisas bem perturbadoras povoam as páginas desse autor. São histórias que incomodam, pra dizer o mínimo.

Uma informação bem macabra: uma das fãs desse escritor era nada mais nada menos do que Neyde Maria Maia Lopes, que ficou conhecida como “A Fera da Penha”. Em 1960, para se vingar do amante, ela sequestrou e assassinou a filha dele, na época uma criança de 4 anos de idade.

Antes de começar, devo avisar que vou entrar em certos detalhes sobre alguns de seus contos… Por “certos detalhes”, quero dizer “revelações sobre o enredo”. Ou seja, spoilers logo abaixo!

Apesar de já ter lido outras obras dele, para exemplificar melhor vou utilizar contos da coletânea “A vida como ela é… em 100 inéditos” (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2012). Inclusive, indico.

Vamos dar uma olhada em alguns dos contos que me fizeram ligar Nelson Rodrigues ao Horror.

O homem do cemitério

Só esse título já traz aquela promessa mórbida…

Uma menina se apaixona por um viúvo que, mesmo passado muito tempo da morte da esposa, ainda mantem o luto. Querendo que ele esqueça a falecida, ela inventa uma mentira sobre a morta: ela era infiel. A menina disse ter visto um outro homem no cemitério chorando na lápide da esposa morta. O viúvo não aceita que a memória da esposa morta seja manchada e, como forma de enterrar a “verdade”, atropela e mata a menina.

O menino azul

Um canalha manipulador se envolve com uma moça rica e inocente. Faz com que a moça se apaixone por ele, casa e consegue a vida de parasita que sempre pediu.  O filho deles nasce, o dinheiro da família dela diminui e o canalha passa a tratar a mulher cada dia pior. Ele ameaça fugir e levar o filho deles caso o dinheiro acabe, o que deixa a esposa fora de si (claro…). No fim da história, a mãe coloca a melhor roupa na criança e a mata. Quando o parasita aparece dizendo que vai levar a criança, ela entrega o cadáver do filho a ele.

O fim da história fala sobre o homem correndo noite adentro, “como se um menino morto o perseguisse (…).”

Loucura

Um homem desabafa com uma colega de trabalho sobre sua esposa, que o trata da pior maneira possível: está sempre gritando, brigando e o diminuindo. A colega acredita que a esposa dele está enlouquecendo e que deveria procurar um médico. O homem acaba comentando isso com a esposa, que começa a temer pela própria sanidade.  Esse medo muda o comportamento da esposa, que começa a ser mais amável e delicada. O marido, por sua vez, como já tinha planejado internar a esposa e ficar com a colega de trabalho, começa a tentar enlouquecer a esposa, fazendo um pequeno joguinho com a coitada.

Por fim, sentindo-se vencida, a mulher degola o marido enquanto ele dorme tranquilamente.

A operação

Uma jovem passa por uma operação de emergência. Por causa de um tumor, um dos seios teve de ser removido. Traumatizada pelo resultado a garota decide, cada vez mais e mais, se isolar do mundo para que ninguém a veja. Totalmente enlouquecida, a moça se arrasta para o porão da casa, “(…) escuro, cheio de aranhas e ratazanas”, onde acaba morrendo.

Um tempo depois, dois vizinhos conversam:

“Você não está sentindo um cheiro esquisito?”

A Morte Negra

Uma jovem mulher tem dois amores: seu noivo e seus coelhinhos. Que meigo! Eles se mudam para uma casa longe da cidade e ela leva os coelhinhos para o quintal. Ela resolve revelar o seu grande segredo ao marido. Antes das relações sexuais ela precisa fazer algo para poder se entregar totalmente. Acontece que ela não conta o que é, ela mostra o que precisa fazer: encharca um coelhinho com querosene e ateia fogo ao animal. O marido, horrorizado, tenta impedir, mas ela o agarra e os dois assistem juntos à morte do animal. Isso continuou durante um bom tempo – não especificado no texto – até uma certa noite quando o marido a encharca com querosene e coloca fogo. Ela “morreu negra” como os animais que matou.

O Anjo

Um homem tem que se afastar da esposa para um longo tratamento de tuberculose. Durante o tempo que está ausente, a esposa o trai com o patrão dele e acaba engravidando. Ele volta para casa, a gravidez avança e, alguns meses antes da criança nascer, ela faz a revelação: o filho é de outro. O homem parece perdoar a mulher e, passados alguns meses, a criança finalmente nasce.

Uma noite, dias depois do nascimento, ele acorda a mulher e manda que ela o acompanhe até o quintal. Ele cava um buraco e diz:

— Agora põe teu filho no buraco, anda!

Presente de Núpcias

Uma garota, que acaba de ficar noiva, recebe uma visita pra lá de desagradável, pra dizer o mínimo. Uma antiga colega de colégio vai até sua casa e diz estar grávida do seu noivo. O noivo é chamado para se explicar. Ele acaba convencendo a noiva de que tudo é mentira.

No dia do casamento, faltando uma hora para a cerimônia na igreja, a noiva recebe uma visita: a mulher que disse estar grávida do seu noivo. Ela carrega uma coisa embrulhada e diz que é um presente. A princípio a noiva acha que é um boneco mas acaba percebendo que é o corpo de um recém-nascido morto. A amante começa a gargalhar e manda que ela segure o filho do noivo dela.

Nelson Rodrigues é mais conhecido como Anjo Pornográfico. Apesar disso, a obra desse autor é muito mais ampla em sentidos, pois toca em diversas nuances da relação entre pessoas. Outro ponto bem conhecido é que, como já foi dito, boa parte das histórias criadas por esse autor possuíam desfechos dignos de Tragédias Gregas.  Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) dedicou boa parte de sua obra A Poética à análise das Tragédias, uma das divisões do teatro grego. Segundo o Filósofo, suas principais características eram despertar piedade e o terror no público. No meu caso, as Tragédias Rodrigueanas conseguiram despertar bastante Horror.

IMG_20170721_163136103

No Comments

Leave a reply