O fazer literário

Não é incomum encontrarmos ávidos leitores que decidem sair da zona de conforto de ler apenas o que os outros escrevem e fazer sua própria arte literária. Acontece que, muitas vezes, as dificuldades surgem logo que uma página em branco é encarada. Como começar? A primeira ideia que surge é a de organização dos sentimentos, dar a eles uma forma concreta, passar para o papel e, talvez, em pouco tempo, ter em mãos uma genuína obra literária. Quando lemos um livro e permitimos que aquelas palavras nos arrastem para seu fluxo, temos a impressão de que o autor escreveu tudo aquilo em um único sopro, em fluxo corrente e incessante sem nada deletar, reescrever, deletar e reescrever novamente… Infelizmente, essa tomada súbita de inspiração e escarga de sentimentos não é o suficiente para a criação de uma obra literária de qualidade. A boa notícia é que os autores dos livros que tanto amamos começaram exatamente pondo no papel aquilo que estavam sentindo ou tinham em mente. É o primeiro passo. O sopro de ventos inspiratórios, como muitos acreditam, tem sua importância, mas não deve ser o alicerce para a construção de um texto literário.

A literatura é uma arte assim como a pintura, a música, o desenho, a escultura. E como toda arte, seus processos e técnicas devem ser conhecidos por aqueles que a praticam. É necessário ter em mente que a literatura não é uma coisa vaga, jogada dentro do tempo e espaço. Ela possui seu sistema próprio e é
necessário que ele seja conhecido. É algo semelhante a aprender a dirigir um automóvel: primeiramente devemos conhecer bem os pedais e suas funções; as marchas e quando usá-las para, só depois, podermos dar a partida e sairmos dirigindo lentamente. Quando falamos em literatura, precisamos ter em mente
que ela é mais forma que conteúdo. Ou seja, a forma como se diz algo é mais importante do que o que está sendo dito, propriamente. Um claro exemplo que podemos tomar é a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O enredo, simplíssimo, poderia ser resumido em poucas linhas. Contudo, a maestria da forma com a qual foi narrada, a torna um marco de nossa literatura.
Uma obra esteticamente riquíssima!

O escritor iniciante deve ter ao menos uma noção básica do sistema literário para não transcrever para o papel exatamente tudo o que lhe vem à mente, sem nenhum trabalho estético e expressivo… Mas qual é a diferença entre autor e escritor? O autor é mais um produto comercial. É o indivíduo que publica um
texto sem ter, muitas vezes, a preocupação com a estética e qualidade literária. Nesse caso, o objetivo da obra é servir de meio e de veículo para um alcance maior. Já com o escritor, as coisas são um pouco mais minuciosas e moldadas detalhadamente. O escritor trabalha a obra além do mercado editorial. Ele tem o
cuidado em moldar aquele texto como um artesão, trabalhando seus aspectos estéticos, históricos, sociais e artísticos. E com essas abordagens, o escritor trança em sua linha narrativa e/ou poética, uma construção da sua perspectiva do mundo. Afinal, literatura é arte! Então, como o ato da criação literária ocorre para o escritor?

Tudo o que existe teve ou terá um início. Um bom escritor não nasceu já banhado com a dádiva do perfeccionismo literário em seus primeiros escritos. Todos eles tiveram suas iniciações, seus “ritos de passagem”. Dos primeiros passos literários, o mais comum ocorre na escola. O jovem percebe uma certa empatia pela literatura em si e começa a demonstrar aptidão para a escrita. O professor ou professora percebe o talento ainda não lapidado do jovem e, por meio de críticas e elogios, o estimula a seguir em frente. Outras pessoas passam a elogiá-lo. Nasce a paixão, a dependência pela escrita, pela literatura. Há um livro, cuja leitura seria essencial para todo iniciante no mundo da literatura, intitulado Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Nele, encontramos as correspondências de Rilke a um jovem aspirante a poeta. Entre outros vários relatos, Rilke diz que morreria se não escrevesse. A escrita é parte de uma segunda natureza, assim como o trabalho. O escritor verdadeiro é aquele que transforma emoções e pensamentos em linguagem. É aquele que filtra o mundo através das palavras e, se não o faz, sente um mal-estar. Uma falta de apreensão da realidade e do mundo.

 

 

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