> Colunistas  > Beatriz de Castro  > Mulheres escritoras e o teste de Bechdel

Mulheres escritoras e o teste de Bechdel

 

O arquétipo de escritor ainda é muito restrito ao universo masculino, porém isso já foi muito pior. Muitas autoras, que hoje são mundialmente reconhecidas e idolatradas por suas obras, já tiveram que esconder o seu gênero para que os livros fossem mais lidos. É o caso, por exemplo, da autora de Harry Potter, Joanne Rowling, que após ser negada em uma série de editoras, teve que abreviar seu nome, pois a editora temia que os meninos não lessem os livros da saga caso descobrissem que a autora era uma mulher. Como não possuía nome do meio, Rowling adotou o nome de sua avó, Kathleen, dando origem ao pseudônimo: J.K. Rowling. Outra escritora que passou por algo semelhante foi Lisa Jane Smith, autora de Diários do Vampiro, conhecida pelo pseudônimo de L.J. Smith e também J.D. Robb, pseudônimo de Nora Roberts para desvincular de sua normal escrita romântica que poderia afastar leitores homens da sua série policial.

Embora, nos dias atuais, o fato do autor de uma obra ser mulher não seja mais o motivo de impedimento da compra de um livro e sua leitura, ainda há muito a ser mudado em relação a mulher na literatura. Através do tempo, as personagens femininas foram ganhando mais força e se desprendendo do ideal de mocinha em risco a ser salva e sendo mais as próprias protagonistas de suas histórias. Entretanto, será que há realmente esse equilíbrio? Um teste interessante inspirado na cartunista Alisson Bechdel, atribuído a sua amiga autora Liz Wallace, propõe desafios, que foram primeiro instigados em filmes, mas que podem ser usados em outras mídias, para saber se há uma representação válida da mulher na obra. Eis o teste:

– Duas mulheres com nomes;

– Que conversem entre si;

– Que não seja sobre um homem.

E então? Parece muito simples, não é? Mas, incrivelmente, muitas obras não passam nesse teste. Caso seja um autor, pergunte a si mesmo se sua obra passa nessas perguntas, caso não, talvez seja o momento de repensar o papel de suas personagens femininas. É interessante perceber que em muitos lugares o que é caracterizado como “literatura feminina” são apenas romances românticos um tanto quanto clichés, nada contra este tipo de obra, mas não seria injusta caracterizar toda forma de leitura de um gênero, nesse sentido o gênero feminino, em apenas um tipo textual? Será que todas as mulheres só buscam leituras baseadas em um romance que finaliza em casamento e filhos em pleno século XXI?

Não apenas na semana do Dia Internacional da Mulher, mas sempre, tentemos ler mais obras escritas por autoras, pensar em nossas personagens femininas não apenas como cenário ou a princesa em perigo. Temos fantasia, suspense, ficção científica, terror e até mesmo, por que não? Romance escritos por mulheres e sobre mulheres. E para todas as autoras e leitoras, um feliz dia da mulher!

Comments:
  • Valéria Reis Gravino
    10 de março de 2017 at 18:21

    Uau! Adorei o artigo e não sabia sobre o teste ou sobre o motivo da abreviação dos nomes das autoras citadas. Excelente!

    • Beatriz de Castro
      11 de março de 2017 at 16:36

      O teste é um modo muito interessante para ver se os livros e filmes que escrevemos ou lemos incluem as mulheres. E as abreviações, infelizmente, são verdadeiras…

Leave a reply