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Movimentos sociais como causa ou como efeito?

Nos tempos atuais existem inúmeras socialidades e embora elas sejam muito intensas acabam sendo parciais. É preciso desfazer essa síndrome do espelho que envolve a maioria das militâncias, onde os indivíduos reúnem-se com outros semelhantes a ele e geralmente esse grupo organiza manifestações em prol da sua causa.

Mas ali representa-se apenas uma parcela mínima da sociedade, onde quem discorda não comparece. O ato de militar forma um laço social mas esse laço fica fraco e muito pobre quando ele exclui o que pensa diferente. Isso fica muito evidente quando um militante reivindica o seu direito o que é muito válido, mas é preciso que não seja raso, é preciso refletir de que maneira esse ato resulta em algo positivo para o coletivo e deixando de ser assim uma ato isolado ou uma causa, para tornar-se uma ato construtivo ou um efeito.

Foi assim que estabeleceu-se a distância entre associações negras e os saberes acadêmicos e científicos, apenas o conceito de etnicidade não é suficiente mais, é preciso exercer nossa capacidade política no ato da convivência e conexão com a vida. O desafio agora é estabelecer um laço social resistente o suficiente para permitir o exercício pleno da democracia. As causas étnico-raciais não são só sobre os negros, ela abrange todos que querem um futuro melhor, justo e livre o suficiente para o indivíduo ser o que julgar melhor para si.

Esse indivíduo politizado, livre e democrático se forma na escola, reforçando assim a necessidade de reflexão do docente sobre “para que” e “por que” está formando os seus discentes e nesta busca por formação plena trazer mais profundidade ao elo corpo e mente, fazendo com que o saber fragmentado de passagem para a educação holística.

Neste tipo de educação o indivíduo descobre sua humanidade através da humanidade do outro desenvolvendo sua razão, sentimentos, intuições, sensações e integração intelectual e assim repensa o universo em que está inserido e o que pode fazer para transformá-lo.

É muito difícil manter a paixão com salários algumas vezes parcelados, que desabonam como profissional e um futuro sem muitas certezas, principalmente no cenário educacional. Mas a permanência e a reflexão das causas sociais se fazem necessárias para que esse sujeito livre e cheio de habilidades já mencionado, projete-se no futuro como efeito e construtor da “Ordem e Progresso” que estampa a nossa bandeira.

A política vem inserida nas causas sociais e as duas na educação, não política partidária e sim de um ato que rege a vida de todos nós. Esse assunto precisa estar em pauta e ser discutido sempre, mas trazendo um pouco de leveza a essa temática indico a obra Política Para Não Ser Idiota de Mário Sérgio Cortella e Renato Jaime Ribeiro, pela editora Papirus. A leitura aborda a política de uma forma descontraída mas com todo o respeito e seriedade que ela merece. Logo no início é feita a narrativa de um fato que encoraja o leitor a refletir e questionar-se. Segundo a passagem um ministro gaba-se de ter visitado uma determinada universidade, que nunca antes em sua história recebera visitas ministeriais, Cortella rebate de forma gentil: “será que ela não funciona bem justamente porque, nunca, nenhum ministro esteve lá?”

Outra curiosidade é o título da obra obrigar ao leitor a não julgar um livro pela capa. Segundo o autor, a palavra idiota vem da expressão grega idiotés, que significa aquele que só vive a vida privada, que se recusa a vida política. Uma leitura interessante, que remete a frase de Friedrich Nietzsche: zombei de todo o filósofo (pensador) que nunca zombou de si mesmo. Certamente é um convite a arte de filosofar e desenvolver nossas habilidades políticas.

Sem titulo

Comments:
  • antonio
    18 de fevereiro de 2017 at 11:22

    Uma reflexão fantástica. Acredito nisso também, as pessoas precisam se unir, os movimentos precisam e causas precisam se unir. Isso me lembra aquele texto que diz mais ou menos assim. Primeiro levaram os negros mas não me importei com isso. Eu não era negro, depois apanharam os desempregados, mas como tenho meu emprego também não me importei. Agora estão me levando mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importou comigo. Não lembro o nome do texto nem do autor, mas esse artigo me fez lembrar de alguns pedaços. Parabéns e obrigado!

  • Juliano
    18 de fevereiro de 2017 at 15:45

    Excelente. Esse livro teve opiniões bem diferentes. Mas o o legal é que a linguagem é simples é uma leitura leve sobre um assunto sério. Precisamos mais disso!

  • Carlos
    18 de fevereiro de 2017 at 16:08

    Reflexões importantes. Gostei bastante do artigo, já li o livro realmente muito bom. Parabéns!

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