Monstros também são simpáticos

Olá, queridos leitores! Eu dei uma sumidinha, mas voltei com a dica de um livro incrível (baseado em fatos reais). Eu não sei qual a opinião de vocês quando ouvem falar “baseado em fatos reais”. Eu simplesmente AMOOOO! Eu acho que deixa a história bem mais interessante.

O livro que venho indicar hoje é de um escritor que tive a honra de conhecer na Bienal do livro o ano passado, mas que só tive o prazer de ler sua obra esse ano. Hoje vou falar um pouquinho do livro Coisas de Meninos, do autor Alexandre Braios.

Confesso a vocês que há uns três anos atrás eu quase não lia livros nacionais. Comecei a ler depois que conheci um amigo que me fez ter uma visão diferente e mudou minha opinião. Ai pronto, foi nacional atrás de nacional. E conheci escritores e obras fantásticas. E, esse ano mesmo, tive um prazer tão grande em ler dois livros nacionais que “ponte que partiu”, como diz um amigo meu. O primeiro foi Diário de uma escrava, da Rô Mierling. Esse livro eu simplesmente devorei. E, quando terminei a leitura, fiquei chocada, porque ele realmente conta uma realidade que muitos ignoram ou desconhecem. É uma leitura que deveria ser OBRIGATÓRIA.

O segundo livro foi Coisas de Menino. E pela primeira vez, em toda a minha vida, nunca havia colocado post-it em livro algum, mas esse livro me fez fazer várias marcações. Trechos que me fez parar, ler e reler e refletir. E tanto esse co o Diário de uma escrava, eu tive que fazer uma resenha no Skoob. Coisa que também nunca havia feito com livro nenhum. Nem com o meu favorito O Iluminado. Segue um resumo da obra:

O livro é dividido em três partes: Raul (carrasco), Piccolo (vítima) e Andrea (ouvinte). Raul, um velho, que está à beira da morte, resolve confessar seu passado nebuloso a sua nova enfermeira. Um segredo que lhe corrói a alma. Pede que ela ouça com atenção, e depois faça uma biografia e que mostre a seus familiares só depois de sua morte, pois não tem coragem de encarar sua esposa e seu filho depois da terrível revelação. Porém, seus planos vão por água abaixo. Sua esposa acaba ouvindo atrás da porta. E o amor que tanto sentia por ele, acaba se transformando em ódio, devido a revelação cruel que acabara de ouvir. Nunca poderia imaginar que um homem tão amoroso, um pai tão dedicado, pudesse ter feito tamanha crueldade. Ela o agride, mesmo ele estando em uma cama, sem ter como reagir, depois ela vai embora de casa, deixando-o com sua enfermeira. Andrea, mesmo sentindo repugnância, acaba ficando e ouvindo o resto do passado “podre” de seu paciente. Um segredo que destruiu a vida de um garotinho de apenas 8 anos. Raul tenta amenizar sua situação, contando como foi seu passado. O que o levou a fazer isso. Mas nada justifica os meios. Andrea depois de ouvir tudo, consegue convencer Raul de procurar seus familiares e os familiares do garoto e pedir perdão pelo seu ato. Mesmo com medo, ele acaba aceitando. Porém, Andrea descobre, quando todos estão cara a cara, que Raul havia mentido. Que boa parte do que ele tinha dito, não passava de invenção.

A história desse livro é completamente incrível, o seu final, ninguém poderia imaginar. Eu mesma fiquei pasma com a revelação. Um livro que revela uma crueldade, e que nós mostra que por trás de um sorriso, também pode se esconder um “monstro”.

Fiz umas perguntas para o Alexandre sobre o livro. Confiram:

O que te levou a ter essa ideia?

Já fazia algum tempo que pretendia escrever sobre esse assunto. Na verdade tinha várias ideias que poderiam resultar em vários livros ou contos em separado. Queria falar do bullying que crianças “fora dos padrões” sofrem na escola e em casa; do abuso sexual infantil, mas queria dar voz também ao abusador. Sempre me intrigou saber o que se passa na cabeça de um pedófilo. Por estudar psicologia, sei que esse desejo por crianças tem origem no passado conturbado, em traumas e muitas vezes, em históricos de abuso também. Mas queria ir além disso, queria tentar imaginar o que leva um adulto a cometer essa atrocidade, principalmente se em seu histórico existe abuso também. Como o pedófilo vê sua presa? Li muitos artigos sobre isso para conhecer mais esse lado obscuro do ser humano.

Queria, então, dar voz ao abusador, mas sem perder o foco na criança. Queria confrontar as duas visões, as consequências para cada um deles. Afinal, os abusadores, frequentemente, são pessoas próximas, parentes ou pessoas que tem a confiança da criança e de sua família. Ao mesmo tempo em que tentava elaborar um roteiro que pudesse abordar esses dois aspectos, sem que resultasse em um dramalhão e nem como forma de justificar o crime de um abusador, pensei como seria para um profissional ter que lidar com uma pessoa que confessa ser um pedófilo. Como é para uma enfermeira ter de limpar, medicar, dar banho etc em um homem que ela simplesmente sente nojo e aversão?

Outro fato que me inspirou foi a história da nadadora Joanna Maranhão que conseguiu modificar a lei a respeito da prescrição de crimes sexuais. A lei ganhou seu nome e agora o tempo de prescrição passa a ser contado a partir do 18o aniversário da vítima e não de quando houve o abuso. Pensando nisso, quis contar uma história onde o criminoso não poderia mais responder legalmente pelo seu crime. O que fazer para alcançar justiça em uma caso como esse?

Com esse monte de ideias, decidi escrever uma única história que pudesse abordar tudo isso.

Quanto tempo você demorou para escrever?

            Desde as primeiras ideias, até conseguir juntar tudo e por no papel, demorei mais que 2 anos. Mesmo depois de começar a escrever, deixava o texto descansar por mais de um mês. Em parte por falta de tempo para me dedicar a escrever, em parte porque foi muito difícil escrever sobre o tema e criar personagens tão complexos.

Qual a sensação de escrever uma história baseada em fatos reais?

No início achei que pudesse ser fácil, mas depois vi que era muito difícil, pois a realidade, a meu ver, é muito pior do que a ficção, e sendo assim, um livro muito cruel acaba por espantar o leitor. A segunda parte do livro, quando eu descrevo como foi o abuso, foi a mais rápida para escrever, não por ter sido mais fácil, mas por eu querer terminar logo. Muitas vezes tive que parar de escrever para me recompor e acho que consegui transmitir esse desconforto no livro, sem que o leitor abandone a leitura antes do tempo. Infelizmente, nós ainda precisamos de socos no estômago para acordarmos para a realidade. A vida, definitivamente, não é uma novela da globo, uma série do netflix ou um filme de Hollywood.

A verdadeira personagem é conhecida sua?

         Na verdade, a história é baseada em diversas histórias reais. Algumas de pessoas próximas, por exemplo, conheço algumas enfermeiras que já me relataram como se sentem ao ter que cuidar de pessoas que elas consideram desprezíveis ou mesmo criminosos. Também conheço algumas histórias de abuso e, acima de tudo, também coloquei no papel experiências minhas da infância. Então, o resultado é uma mistura de muitas histórias e outros tantos fatos fictícios.

O que ela achou sobre você relatar esse trauma que ela viveu em um livro?

Como eu disse, a história tem tanta mistura de fatos reais e ficção que é impossível identificar qual parte faz parte de determinado fato. Em relação à minha história, eu me senti livre dela ao escrever. Consegui deixar ela no papel como forma de auxiliar outras pessoas que possam ter tido experiências parecidas.

Valeu essa experiência?

Muito. As primeiras devolutivas sobre o livro, foram de pessoas me agradecendo por ter escrito e colocado em discussão um assunto tão pouco falado de forma aprofundada. Vários foram os e-mail de pessoas que foram abusadas na infância e que se sentiram na pele da personagem. É muito gratificante. Senti como se o objetivo principal fosse alcançado. Também recebi um e-mail de uma sexóloga que tem usado meu livro em suas palestras. Além disso, só recebi elogios sobre o livro, então tem sido muito gratificante.

Bom, queridos leitores, espero que tenham gostado da dica. Vou deixar o link aqui dá página do autor para quem tiver interesse em adquirir essa obra, e quiser saber mais sobre ele.  Até a próxima!

https://www.facebook.com/EscritorAlexandreBraoios/

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