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Modos de subjetivação do feminino no conto Mistério em São Cristóvão, de Clarice Lispector, dentro do contexto da modernidade.

Por, Iariny Carvalho

 

A literatura, em uma de suas funções e características, atua como um gigante espelho pendurado diante da sociedade. Esse espelho nos revela o período histórico, práticas e costumes culturais da sociedade, no momento da produção literária, mesmo que mínima ou subjetivamente. Durante o movimento feminista da década de 60, muitas autoras da época deixaram visíveis em suas obras esse dado momento histórico. Com Clarice Lispector, que teve parte de sua obra produzida nessa década, não poderia ser diferente, mesmo que essa abordagem, muitas vezes, manifeste-se de forma sutil e imperceptível a uma primeira leitura vaga e despretensiosa.

No início de sua carreira, Clarice foi influenciada pelas tendências renovadoras europeias, principalmente pela fenomenologia existencialista, com toques de Heidegger e Sartre, que propagava na Europa desde o começo dos anos 30.
Essa ideia da consciência centrada no Eu que só passa a existir quando é percebido como um ser que habita o mundo, passa a caracterizar o homem em um plano metafísico, diferentemente do plano ético, que era o tradicional. E é nesse Eu metafísico que a ficção clariceana se fixa. Seu romance de estreia,
Perto do coração selvagem (1944), envereda justamente por esse caminho com uma epígrafe retirada da obra Retrato do artista quando jovem (1916) de James Joyce, que já conduz a essa intencionalidade: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.”

Segundo aspectos históricos e sociais, a feminilidade está sujeita a um destino que lhe rouba o direito de representar seu papel na sociedade. A caracterização do gênero feminino estava restrita a uma vida doméstica e dedicada ao lar, ao marido e aos filhos. Mesmo após seus direitos sociais conquistados, a participação feminina fora do ambiente familiar era, ainda, tida como transgressora e dita como algo “pecaminoso” por deixar filhos e maridos largados ao lar. Mesmo a inclinação feminina para as artes teria que percorrer um caminho mais árduo já que essa tendência artística era vista como natural
do sexo masculino. Essa escrita dita feminina, muitas vezes, para serem aceitas no mercado, teriam que anular-se quanto ao seu gênero e adotar um papel neutro dentro de uma sociedade patriarcal.

Tendo sua obra produzida no período conhecido como Pós-Modernismo ou terceira fase modernista, Clarice, assim como muitos outros escritores do mesmo período, faz uso da originalidade e da maneira não-convencional de moldar um texto literário, fugindo da linguagem estereotipada. Consequente dessa postura adotada pela autora, é comum encontrarmos textos produzidos com técnicas surrealistas em que a trama pouco se desenvolve no mundo físico, mas, sim, com o desenrolar do fluxo de pensamento dos personagens e do narrador da história. Essa visão surrealista é facilmente percebida no conto Mistério em São Cristóvão, que faz parte da íntegra do livro de contos Laços de Família (1960). Nesse conto, um acaso leva três mascarados a invadirem o jardim de uma casa no meio da noite com a finalidade de roubar alguns jacintos para porem em suas fantasias. Durante o ato do furto, eles deparam-se com
uma jovem do outro lado da janela, no interior da casa. Ambos, jovem e mascarados, tomados pelo susto, desencadeiam um alarde que desestabiliza a tranquilidade que, antes, imperava naquela família. Os mascarados fogem deixando apenas uma flor quebrada no chão enquanto a mocinha de 19 anos,
tomada pelo pavor, ganha um fio de cabelo branco em sua cabeça. Nota-se nesse conto uma forte carga de subjetivação e simbolismo. O início do conto já nos revela uma cena tipicamente familiar em uma tradicional família burguesa que vive bem centrada com cada indivíduo em seus respectivos lugares,
exercendo suas respectivas funções. Mas essa estabilidade é desconstruída facilmente. O conto, em seu plano cronológico, situa-se durante a noite que, convencionalmente, é o período do dia em que as pessoas recolhem-se em seus espaços e dentro delas mesmas e, no sono, o inconsciente age livremente. Também é o período mais povoado por crenças e misticismos, conferindo uma certa atmosfera misteriosa à narrativa. O plano simbólico também aumenta com a chegada dos mascarados: um galo, um touro e um demônio. Em termos mais profundos de simbologia, as máscaras, dentro da estrutura psicanalítica que envolve o conto, não foram meras escolhas aleatórias. É importante perceber a relação das personagens mascaradas com o jardim no campo do simbolismo. Tanto galo quanto o touro são animais que, dentro de muitas culturas, representam a fertilidade, virilidade e sexualidade masculina. O touro, em específico, simboliza as forças animalescas e sexualidade como aliada dos homens.
O diabo, por sua vez, é a figura mais misteriosa. Ele é o símbolo da tentação, da regressão e da transgressão. A cultura, a sociedade, no conto, estariam representadas pela própria casa e toda a rotina de seus habitantes. A rua, o que fica além dos muros da casa, seria o selvagem, o desconhecido. E o jardim seria um intermediário, um meio termo, com sua natureza bem cultivada pelo homem moderno. Culturalmente, o jardim representa o estado primordial do homem sem pecado; o paraíso onde o divino e o mundano estão em harmonia (Éden).
Curiosamente, um jardim cercado pode simbolizar a área intima do corpo feminino. Quando o diabo, o galo e o touro adentra ao jardim da casa, há uma conotação, não apenas bíblica, mas, também, sexual. Os três mascarados, são parte do selvagem (fora dos muros) que invade a natureza cultivada (jardim). O
galo e o touro que, simbolicamente representam a sexualidade masculina, invadem o jardim cercado que, supostamente, simboliza a intimidade feminina, conferindo ao conto, uma sutilíssima conotação sexual ou de descoberta sexual. É quando, por fim, que os dois lados chocam-se: a mocinha de dezenove anos e os mascarados.
A conexão entre mulher e natureza também é muito forte. Em Mistério em São Cristóvão, podemos perceber esse vestígio, porém, de forma mais condensada e sutil. Por, fim, o fio de cabelo branco que aparece na fronte da mocinha indicaria a perda de sua inocência infantil e o seu amadurecimento provocado pelo choque do primeiro contato com o que é relacionado a dimensão sexual masculina. O ocorrido provoca pavor na mocinha e nos mascarados e rompem a frágil ordem e estabilidade da família que, aos poucos, retoma a sua ordem e suas monótonas atividades diárias.

Comments:
  • Cassandra
    8 de fevereiro de 2017 at 12:48

    Isso é quase uma releitura ou uma análise do discurso, muito legal. Precisamos mais disso, para evidenciar vários assuntos! Parabéns!

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