Meu primeiro encontro com Stephen King

Ontem foi aniversário de Stephen King, o cara. Então, nada mais adequado do que dedicar a coluna de hoje a ele.

Quando eu era mais novo, filmes baseados nos livros e contos de King abundavam nos cinemas e na televisão. Eu assistia a todos com aquele medo que só crianças podem sentir ao ficarem sozinhas e frente a frente com filmes de terror.

Eu já sabia que King era considerado o “Mestre do Horror Moderno”. Toda vez que surgia uma propaganda de um filme dele, esse epíteto era obrigatoriamente recitado com uma ou outra modificação. Mas em uma época de inflação galopante que fazia os preços dos livros serem proibitivos (os maravilhosos anos 80), nunca tinha lido nada do autor e, pra ser sincero, nem mesmo sabia como era a cara do sujeito.

capa_sombras_da_noite_02Foi na escola onde fiz o ginásio que consegui meu primeiro contato com algo escrito pelo Rei. Aliás, a biblioteca da Escola Municipal Dr. Cócio Barcellos era incrível, pra dizer o mínimo. Eu me sentia como… bem, me sentia como uma criança que gostasse de ler em uma biblioteca repleta de livros bons! Mas estou divagando…

O primeiro livro foi uma antologia intitulada Sombras da Noite (Night Shift, 1978) . Por coincidência, a primeira antologia de contos publicada pelo autor e considerada por muitos a melhor de todas até agora. Realmente comecei com o pé direito.

Uma curiosidade é que dos 20 contos dessa antologia, 9 foram publicados antes do primeiro livro de King, Carrie, a estranha (1974), chegar às livrarias americanas. Em outras palavras, antes do seu sucesso como escritor de horror. Por exemplo,  os contos Primavera Vermelha e Espuma Noturna foram publicados pela Ubris, uma revista literária da Universidade do Maine, respectivamente em 68 e 69. Os demais anteriores a 1974 foram publicados pela Cavalier, uma publicação voltada para o público adulto masculino…. Sim, é isso aí, uma revista de “mulher pelada”, como diziam antigamente. E essa não foi a única revista masculina onde o sr. King publicou. Ele também teve contos dessa antologia publicados na Penthouse e na Gallery, essa última acusada de ser uma cópia da Playboy.

Então, vamos dar uma olhada rápida nos contos dessa antologia macabra. E eu juro! Dessa vez, nada de spoilers.

Jerusalem’s Lot 

Esse conto tem uma estrutura interessante. É um conto epistolar. A história é contada através de cartas e anotações em diário.

Em 1850, um homem e seu fiel mordomo (não são Bruce Wayne e Alfred iac iac) se mudam para uma mansão cercada de mistérios, segredos e lendas.

Esse conto é baseado nos Mitos de Cthulhu. Então, prepare-se para se deliciar com as referências à Howard Phillips Lovecraft. O nome também faz referência ao segundo romance de King, A Hora do Vampiro (‘Salem’s Lot, 1975). Mas vou deixar pra explorar essas relações em outra coluna. Acho que vou precisar de espaço.

Turno de Cemitério

Um dos meus favoritos.

Trabalhadores de uma fábrica têxtil são convocados para um período de trabalho extra no feriado. A tarefa é limpar os subterrâneos da fábrica, infestada por ratos.

Só que…

Espuma Noturna

Esse aqui é bem pessimista. Mostra um grupo de sobrevivente reunidos em uma praia depois que um vírus letal de gripe dizima boa parte da população mundial.

Eu sou o umbral da porta

Depois de uma missão tripulada na órbita do planeta Vênus, um astronauta suspeita que algo o tenha infectado durante sua estadia no espaço.

A Máquina de Passar Roupas

Um policial investiga um acidente sangrento em uma lavanderia. Conforme sua investigação avança, ele começa a perceber que pode estar diante de forças sobrenaturais.

O Fantasma

Outro dos meus preferidos.

Uma sessão de terapia. Um homem, que perdeu os três filhos, conta ao seu psiquiatra que as crianças foram mortas por um ser sobrenatural que habita armários.

Conto perfeito pra ler na sala de espera de algum consultório.

Matéria Cinzenta

Outro perfeito.

Em uma noite de nevasca, um garoto pede ajuda ao dono de um bar. Seu pai começou a agir estranhamente. O dono do bar escuta e pede ajuda a dois fregueses. Enquanto os três caminham no frio, o dono conta a história assustadora que ouviu do garoto.

Esse aqui me deixou preocupado com lâmpadas que são roubadas em corredores de prédios.

Campo de Batalha

Um assassino profissional recebe uma encomenda inusitada: uma caixa de soldadinhos de brinquedo. O que ele não sabe é que os brinquedos são parte de uma vingança.

Caminhões

Um grupo de pessoas está entrincheirada em uma loja de conveniência de um posto de gasolina enfrentando o que deve ser o último inimigo da humanidade: caminhões.

Às Vezes Eles Voltam

Um professor que teve o irmão assassinado por uma gangue de delinquentes quando era jovem percebe algo estranho acontecendo: os bandidos que mataram seu irmão estão de volta, só que não envelheceram nem um dia.

Primavera Vermelha

Vítimas de um assassino, conhecido como Jack Calcanhar de Mola, começam a aparecer em um campus universitário. As mortes são perturbadoramente semelhantes a crimes acontecidos no passado.

O Ressalto

Um ricaço sequestra o amante de sua esposa e faz uma proposta: se ele conseguir dar a volta no arranha-céus onde estão caminhando pelo ressalto, ele poderá sair dali vivo, com uma grande quantia de dinheiro e com a esposa do magnata.

O Homem do Cortador de Grama

Um homem contrata um profissional para cortar sua grama. Acontece que esse profissional tem métodos bem bizarros.

Ex-Fumantes Ltda

Decidido a parar de fumar, um homem decide seguir o programa de uma empresa especializada e que leva muito a sério seu tratamento. Sério até demais.

Eu Sei do que Você Precisa

Um jovem conquista o coração de uma menina da maneira mais singela do mundo: ele consegue antecipar e dar tudo que ela quer. Que meigo… Só que essa habilidade tem origens sobrenaturais.

As Crianças do Milharal

Um casal se depara com uma cidade sem adultos e dominada por crianças que seguem uma deturpada versão da Bíblia.

O Último Degrau da Escada

Um homem é remoído pela culpa após o suicídio de sua irmã.

O Homem que Adorava Flores

Um rapaz caminha pelas ruas da cidade, carregando um buquê de flores, a procura de sua amada.

Como uma boa história do King, o final não é nada bom.

A Saideira

Outro da coleção “preferidos do Hedjan nesse livro”.

Um viajante perdido chega a um bar em uma noite de nevasca. Ele conta que teve de deixar sua esposa e filha no carro enguiçado, nas cercanias de ‘Salem’s Lot. Os dois homens acompanham o viajante, preparados para o pior pois histórias macabras cercam o local.

Esse aqui também tem relações com o romance já citado, A Hora do Vampiro (Salem’s Lot, 1975). Mas enquanto o primeiro conto desse livro seria um acontecimento muito anterior ao romance, esse aqui acontece depois da história do livro.

A Mulher no Quarto

Uma senhora sofre em uma cama de hospital e seu filho pensa em apenas uma coisa: fazer ou não eutanásia.

 

Bom, eu me lembro muito bem que o contato com os contos me deixou boquiaberto. Como disse antes, estava acostumado com os filmes e, convenhamos, a maioria dos filmes baseados na obra de King não honra sua fonte. Não que não fossem filmes divertidos. Mesmo existindo os ótimos e os péssimos, eram filmes bons de se assistir. Mas a maneira como King conta suas histórias, a atmosfera que cria, os personagens que habitam as páginas, alguns detalhes, tudo isso me afetou muito mais do que qualquer cena sangrenta em um filme “baseado na obra de Stephen King”. Eram histórias que ficavam na cabeça dias depois do conto ter sido lido.

Vários contos desse livro foram adaptados para o cinema, para curta-metragens e para produções diretas para a TV. Alguns viraram porcarias homéricas, outros ficaram bons. Mas mesmo nos bons falta aquilo que só os bons escritores de terror/horror conseguem produzir. A atmosfera, a sugestão, o sentimento de ameaça. Com alguns desses contos, Stephen King fez muito bem o trabalho de deixar 50% da história para o leitor. Suas descrições nem sempre dão conta de tudo que está acontecendo, o que significa que o resto se processa em nossas mentes, imprimindo na imagem dos monstros dessas histórias os nossos próprios monstros.

Em resumo. Conheci King quando era um moleque que não tinha idade suficiente para se barbear. Hoje em dia, minha barba está muito maior, bem como minha relação de livros de Stephen King lidos. E quando minha barba estiver grisalha, se o Rei ainda estiver escrevendo, vou continuar tendo o maior prazer em ler suas histórias.

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