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Maura Lopes Cançado: A escritora, a jornalista, a louca

É verdade que a literatura vem enveredando por caminhos mais homogêneos, acolhendo homens e mulheres na sua produção artística… Mas a verdade é que a prática literária nem sempre pertenceu ao universo feminino e, durante muito tempo, muitas mulheres que desejavam ter sua obra publicada e vendida precisavam adotar um pseudônimo masculino. Também é verdade que, mesmo em meio às dificuldades que o mercado editorial literário e a própria sociedade, patriarcal e machista, impuseram às mulheres, muitos nomes femininos como Virginia Woolf, Jane Austen, Emily Brönte, Mary Shelley, ganharam a imortalidade e são cultuados até hoje. No Brasil também temos nomes de mulheres que se envolveram em um manto de misticismo no universo literário e são consagradas até mesmo por quem nunca leu suas obras. Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, Cora Coralina, Adélia Prado, a escrachada Hilda Hilst, a sertaneja Rachel de Queiróz – primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – e a mística Clarice Lispector são as donas de alguns dos nomes que viraram ícones literários brasileiros. Mas o que dizer daquelas mulheres que produziram uma obra profundamente intrigante e que praticamente caíram no esquecimento? Mulheres como e Maria Firmina dos Reis, vista como a primeira romancista brasileira e Nísia Floresta, considerada como a pioneira do feminismo no Brasil, tiveram seus nomes praticamente apagados do círculo literário apesar de suas contribuições ímpares. Contudo, mesmo que raramente, seus nomes são mencionados em palestras, aulas ou
artigos voltados para a literatura. Ainda há aquelas que, por um fio, não caíram no esquecimento total. Foi esse o caso da Maura Lopes Cançado, de origens mineiras e popular nos círculos literários cariocas da época, era considerada uma promessa no mundo das letras. Mas, de fato, quem foi essa figura icônica quase apagada da história e que teve apenas dois livros publicados durante a década de 60? Era a menina bonita que nascera em uma família rica e influente de Minas Gerais e filha predileta do pai? Ou era a mulher que buscava encontrar seu próprio lugar no mundo? Em seu livro Hospício é Deus, que na verdade é nada mais que seu próprio diário autobiográfico somado a um quê de sua profunda inventividade provinda de sua geniosa habilidade narrativa, que passou muito tempo esquecido e fora de catálogo, Maura relata sua vida, enquanto interna no Hospital Gustavo Riedel, no Rio de Janeiro. No início do seu diário, Maura faz uma rememoração de sua infância na fazenda onde cresceu e, ao fazê-lo,
afirma: “Não creio ter sido uma criança normal, embora não despertasse suspeitas. Encaravam-me como a uma menina caprichosa, mas a verdade é que já era candidata aos hospícios aonde vim parar”.

Maurício Meireles, em seu Perfil Biográfico sobre Maura, nos diz: “Maura Lopes Cançado era uma figura ambígua. Ao mesmo tempo em que inspirava cuidados – seu tom de voz, dengoso, era uma de suas características – , a moça de cabelos volumosos era dada a arroubos.” Sempre foi dona de uma personalidade difícil, pois acreditava ser o centro de sua família. Poderia até ser um caso normal não fossem as consequências ruins que sua personalidade lhe trouxe. Descoberta por Ferreira Gullar, Maura trabalhou no Jornal do Brasil e dizia-se a maior escritora da língua portuguesa. Na redação do jornal tinha surtos violentos e comportamentos que, de inicio, não se faziam distinguir entre excêntricos ou loucos. Um de seus maiores desejos era ver um avião cair e, achava ela, que seria mais emocionante se ela própria estivesse dentro dele. Porém, o que mais chama atenção na vida de Maura foi sua escolha arbitrária em tornar-se interna em hospício, aos 18 anos utilizando o nome de sua irmã mais velha, Judite, por quem tinta uma grande fixação durante a infância, e, mais tarde, durante um surto, vindo a matar outra interna. A leitura do diário de Maura é de um esforço maior para pessoas um tanto mais sensíveis. Um tanto similar à Clarice Lispector, Maura faz em suas páginas diárias um mergulho na
subjetividade do ser, naquilo que há de mais profundo e emaranhado no ser humano. Porém, enquanto Clarice utiliza-se de personagens ficcionais, Maura faz uso de sua própria experiência enquanto ser humano que beira a decadência em um hospital psiquiátrico. Mas até que ponto Maura pôde ser
julgada como completamente louca? Com páginas que fazem o leitor duvidar de uma completa loucura ou uma completa sanidade, Maura nos arrasta para uma análise intima daquilo que define a nossa própria humanidade. Ela dá voz ao louco, ao confinado nos corredores frios e inóspitos dos manicômios. Uma voz aparentemente inteligível mas, que se escutada de perto, pode ser compreendida e sentida. Uma vez capaz de atingir-nos certeiramente naquilo que temos de mais humano. Uma voz que pode revelar uma raridade de beleza efêmera que só é visível nos olhos e no sorriso do louco. Ela ainda nos diz em seu relato: “O que me assombra na loucura é a distância – os loucos parecem eternos” E ainda: “Hospício são flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro. (…) Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é Deus.” Segundo Ferreira Gullar, o relato de Maura trata-se de “um dos mais contundentes depoimento humanos já escritos no Brasil.” Ela fazia do seu lugar de internação o plano de fundo de seus questionamentos e observações sobre a vida e o mundo dentro de relatos de denúncia sobre a realidade abusiva e inumana a qual ela própria e outros pacientes eram submetidos dentro das instituições psiquiátricas. Além de seu diário Hospício é Deus, cujo título ainda carrega a definição Diário I, pois o editor de Maura esquecera o manuscrito original do segundo em um taxi, ela ainda possui um livro de contos intitulado O Sofredor do Ver que trata-se de uma antologia de seus contos que foram publicados originalmente num suplemento do Jornal do Brasil. Contos ainda permeados pela loucura como No quadrado de Joana e Introdução a Alda. Por fim, ao final da leitura de Hospício é Deus, deparamo-nos com a incerteza obre onde começa e termina a fronteira entre a loucura e a lucidez de Maura Lopes Cançado.

 

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