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Luiz Alfredo Garcia-Roza e os perigos da memória

O autor Luiz Alfredo Garcia-Roza é hoje um dos mestres da literatura policial brasileira. Esse gentil senhor, filósofo e psicanalista, quando começou a carreira de escritor já ultrapassara a casa dos sessenta anos de idade. A maturidade, para alguns escritores, é uma benção. A sua estreia em 1996 com o romance O Silêncio da Chuva, protagonizado pelo então inspetor Espinosa, já trazia os elementos que hoje são característicos da prosa policialesca. E não tomem isso como uma crítica negativa. Apesar de se incluir na fronteira entre o romance de enigma e o romance noir, as histórias de Garzia-Roza são clássicas e, ao mesmo tempo, originais e modernas. O mistério está ali, assim como o suspense, a tensão, e a morte como elemento irredutivelmente inexplicável.

Seu último romance, Um Lugar Perigoso, de 2014, tem como protagonista o professor aposentado Vicente Fernandes, um homem pacato, que vive uma vida frugal num pequeno apartamento em Copacabana, rodeado por seus livros, seus trabalhos como tradutor e mais nada. É um homem solitário, que vive uma vida enfadonha. Um dia, revirando as suas gavetas, acho um pequeno pedaço de papel, datado de dez anos antes, que continha o nome de dez mulheres, sendo que o nome Fabiana, estava circulado com intensidade. Havia algo ali, ele só não sabia o que era. E é a partir deste achado, aparentemente banal, que Garcia-Roza começa o seu décimo primeiro romance.

Aos poucos, o autor desnuda o protagonista. Vicente fora aposentado por invalidez, depois de uma série de problemas dentro da universidade em que trabalhava. O papel como o nome das mulheres datava da mesma época. Entre os problemas adquiridos com a doença, estava a falta de memória. As suas lembranças, aos poucos, se embaralhavam com a sua imaginação. E, muitas vezes, era difícil distinguir uma da outra.

A experiência de vida de um escritor é, penso eu, a matéria prima da sua obra. Dos seus romances que já li este me parece aquele em que Garcia-Roza traz para a literatura o seu conhecimento em psicanálise. A memória, como psicanalistas e outros teóricos sociais já apontaram, é um elemento volátil, um líquido inflamável.

Os dias passam e algo atormentava a alma de Vicente. Dos seus sonhos, estradas sinuosas para o inconsciente, como diria Freud, o professor traz a imagem de uma mulher desmembrada. Sem saber o motivo, ele sabe que aquele corpo está diretamente ligado ao nome Fabiana. E aqui vale a reprodução de um trecho do livro:

“(…) ele podia fazer uso do que restava da tarde e da noite para retomar as buscas no campo da memória, buscas que não considerava isentas de perigo. A imagem que fazia da sua interioridade, assim como da interioridade de qualquer pessoa, era a de uma gigantesca caverna cujo teto e fundo se perdiam numa extensão que luz nenhuma alcançava. Aquele que se aventurasse nesse mundo começaria se deslocando sobre uma superfície suave, clara e com caminhos bem demarcados, até chegar a uma região cuja irregularidade e iluminação precária o desorientariam para no final atingir a região limítrofe além da qual havia apenas escuridão e um vazio desconhecido. Dessas regiões mais remotas, os sonhos em geral forneciam apenas uma imagem leve e distorcida, enquanto a loucura era manifestação externa do horror interno. O que ameaçava o caminhante nessas incursões era não ser capaz de perceber o limite obscuro onde a razão transborda, perder a sua identidade e não conseguir mais encontrar o caminho de casa. A memória é um lugar perigoso.”

Este trecho, genial, dá o tom da narrativa, que é, assim como a memória, um lugar perigoso, um local onde encontramos mais do que buscamos e, muitas vezes, não gostamos o que vemos lá.

Quando se sentiu demasiado atormentado com a sua falta de memória sobre o episódio que Vicente começou a buscar ajuda fora de si. Primeiro com uma professora e amiga da época da faculdade. Ela não conhece as moças que estavam na lista, tampouco sabe quem é Fabiana. Para a surpresa da Vicente, um dia Paula, a amiga, desaparece. E é neste ponto que o professor recorre ao nosso velho conhecido, o delegado Espinosa.

Espinosa é conhecido por nós, leitores, como um homem de imaginação fértil e por ter grande capacidade dedutiva; e mais ainda, por ser um amante de mistérios. O delegado, junto com seus companheiros Welber e Ramiro, decide checar a história do professor. E na medida em que percorrem o labirinto da memória de Vicente, se perdem entre o delírio e a memória.

Este último romance de Garcia-Roza merece ser lido com cuidado, com calma, com apetite. O autor está no auge da sua prosa, e esta que se mostra cada vez mais afiada e cativante. Que venham mais romances!

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