Kafka e Saramago: O Desprezo pela Aparência pelo foco na Essência

Franz Kafka nasceu em Praga, atual território da República Tcheca em 1883 e não teve o que se pode dizer de vida feliz. Já foi inclusive citado nessa coluna que pediu para que toda a sua obra fosse queimada antes de sua morte, tamanha era sua satisfação com a vida. Kafka foi postumamente reconhecido como um dos pioneiros da literatura existencialista, em que seu principal tema dissertativo era o ser humano em sua mais primitiva essência. Sua obra ultrapassou inclusive as fronteiras da literatura, chegando a influenciar pintores de grande renome, como por exemplo Salvador Dali. Não é um autor estudado no ensino médio, e com razão: imagino o quão difícil deva ser ensinar aos adolescentes o que é a essência do ser humano, em seus livros que são sempre um labirinto infinito em que a angústia predomina na leitura e não existe perspectiva de um fim surpreendente: a história termina exatamente como tem seu meio. Gregor Samsa acorda transformado em um monstruoso inseto e esse fato não muda, a estranheza do fenômeno que o fez metamorfosear-se de humano para inseto não possui final feliz: ele não se transforma magicamente em ser humano, mas morre como inseto. Mas o fascinante da literatura de Kafka não é fim, mas sim os meios, afinal de contas, como poderia um autor ter tanto renome e ainda ser comentado anos depois de sua morte, se sua literatura não tivesse nada a oferecer?
Velado pela estranheza da narrativa, Kafka critica a sociedade de forma nunca vista antes, e também nunca criticada a ponto tão profundo. Ele não fala da burguesia, dos giros que a roda política dá, ou da opressão sofrida pelos menos favorecidos, como ainda grandiosos autores, como Victor Hugo ou Graciliano Ramos fazem: ele critica a natureza do ser humano nas suas profundezas mais remotas. Enquanto Gregor Samsa tenta se adaptar às patas de inseto, não mais as mãos ou pés humanos, seu pensamento não desliga no fato de que ele precisa sair daquela situação para poder ir ao trabalho. Não parece um tanto quanto estranho, acordar transformado em um grotesco inseto e apenas pensar em ir trabalhar? Pois bem, Kafka diz que o ser humano vive de maneira tão sistematicamente automatizada que despreza questões de absoluta importância que chegam a ser ridículas questioná-las, em sumo, o gênio tcheco mostra que pouco ou nada o ser humano liga para o seu essencial, e apenas se preocupa com as banalidades da vida cotidiana. Certo, mas e o que isso tem a ver com Saramago?
Pois bem, no início do século XX nascia uma criança que revolucionaria nosso modo de ver o mundo. José de Sousa Saramago precisou trabalhar antes dos dez anos de idade, e praticamente não frequentou a escola: aprendeu a ler e escrever sozinho, já desde cedo demonstrando o gênio que viria a se tornar. Em 1995 lançou o que muitos consideram sua obra-prima, Ensaio sobre a Cegueira, que aborda também de maneira velada os princípios já levantados por Kafka anos antes, mas de uma forma muito diferente. Também estranhamente, uma sociedade inteira fica sem enxergar. Certo que existem problemas de acessibilidade aos deficientes visuais hoje em dia, mas toda uma sociedade cega? E se todos fossem cegos? Despreocupado com os estigmas ou críticas que viria a sofrer ao demonstrar o quão podre o ser humano pode ser, Saramago aborda esse tema com maestria tal, que muitos dizem ter lhe rendido o Nobel de Literatura, o único dos escritores em língua portuguesa. A obra desenvolve-se de maneira tal, que o leitor chega a espantar-se com a brutalidade primitiva que o ser humano pode chegar quando privado do sentido da visão, fazendo do que podemos dizer metaforicamente: fechar os olhos para o mundo exterior e abrir para o “mundo” interior, o escritor português traça seu esboço do que é, ou seria, o verdadeiro instinto humano.
Vale acrescentar que Saramago também possui outra obra magnífica, que encaixa-se perfeitamente no presente tema, intitulada “As Intermitências da Morte”, em que num determinado país, a partir do virar do ano, a Morte (personificada) decide não mais trabalhar e as pessoas não morrem mais. Novamente é instalado o caos na sociedade, hospitais superlotados, funerárias falidas, igrejas lutando contra o Estado e tudo quanto possa se imaginar sobre esse bizarríssimo fato, mostrando mais uma vez, a essência do ser humano, tirando os olhos ou a morte, para mostrar ao mundo seu pensamento do que realmente somos.
Franz Kafka e José Saramago abordam o mesmo tema: a nossa espécie, mas de formas diferentes: o tcheco foca em apenas uma pessoa, enquanto que o português fala de uma sociedade inteira.
Mas e você? Concorda com eles? Será mesmo que o ser humano é da forma como eles desenharam? E se você de repente ficasse cego, ou não morresse mais, ou amanhecesse como um inseto? Seria a mesma pessoa que é agora? Ou libertaria um monstro que, segundo eles, vive dentro de cada ser humano?

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