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J. R. R. Tolkien e sua/nossa Terra-Média

John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), é conhecido aqui por suas obras O Hobbit e O Senhor dos Anéis, entre outras, e é da sua obra que consta uma fala que inspira o título desta coluna “Livro adentro, porta afora”. Nem preciso dizer que esta colunista é parte integrante da enorme legião de apreciadores da obra deste professor britânico, linguista, que tinha como passatempo o desenvolvimento de idiomas. Aqui, falaremos brevemente de tão vasta biografia.

Ocorre que, para um linguista (Tolkien era professor em Oxford), um idioma faz sentido no contexto de seus falantes, ou seja, diferente dos estudiosos das gramáticas – que registram e analisam a língua enquanto código padrão, lhes interessa a língua viva, sendo falada por um povo. Assim, tendo desenvolvido idiomas, como o élfico, concebeu também as histórias relativas aos povos cujas línguas havia criado.

Tolkien é um autor que me ajuda a pensar nos dilemas do homem diante da humanidade, do mundo e da própria existência. Um homem que não nasceu rico, perdeu o pai aos quatro anos e a mãe aos doze; mais velho de três filhos. Uma pessoa como eu e você, leitor, lutando para ter uma formação que lhe permitisse conquistar um emprego regular, num mundo em crise, com a paz ameaçada.

Tolkien ficou noivo de Edith Bratt em janeiro de 1914. Em agosto daquele ano a Inglaterra declararia guerra à Alemanha. Em março de 1916 o casamento acontece e em junho Tolkien embarca para a França com o exército britânico. Retornara brevemente para casa, acometido por febre tifoide. Foi amigo do também escritor C. S. Lewis (das Crônicas de Nárnia) desde a década de 1920.

À altura da publicação de sua primeira obra, era casado e pai de quatro filhos; John (1917); Michael (1920); Christopher (1924) e Priscilla (1929). O autor contava histórias de ninar para sua prole, tendo a mente povoada pela Terra-Média e seus personagens, como um hobbit que surgiu em publicação assim:

“Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo; tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era uma toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.” (2009, p. 1)

 

Este é o primeiro parágrafo de O Hobbit, publicado em 1937, mas a escritura do livro começara em 1930. Em 1938, após a publicação do livro nos Estados Unidos da América, o autor é premiado com o New York Herald Tribune. O Senhor dos Anéis, concebido como sequência desta história, em que permanecerão alguns personagens, como o Rei elfoElrond e Gandalf, e surgirão outros, como Frodo Bolseiro, SamwiseGamgee, MeridocBrandebuque (Merry) e PeregrinTook (Pippin). É um único romance, que foi publicado em três partes principalmente pela escassez de matérias primas no pós- guerra, da seguinte forma: A Sociedade do Anel em agosto de 1954, As Duas Torres em novembro de 1954 e O Retorno do Rei em outubro de 1955.

Observem que o diretor Peter Jackson reuniu enorme equipe de preparação na Nova Zelândia com antecedência, construindo a Vila dos Hobbits e plantando o cenário; de sua equipe constavam ferreiros, que produziram artesanalmente as armaduras e capacetes, e demais apetrechos; tudo foi filmado, mas a produção também foi dividida, não só pelo absurdo que seria um filme único, visto que somados os filmes passam das nove horas de duração, mas também para comercializar o primeiro e ter fundos para finalizar a produção.

Voltando ao Tolkien, em 1963 morre seu amigo C. s. Lewis (em 22/11, mesmo dia do assassinato de J. F. Kennedy e da morte do escritor inglês Aldous Huxley). Em 1971 morre sua esposa Edith e o autor, quase um hobbit, falece em 2 de setembro de 1973.

Reparem que, em que pese a quantidade e beleza das obras deste autor, dedico tempo e atenção também à sua biografia. Porque, perguntaria o leitor. Como disse acima, uma pessoa comum, como eu e você, com profissão, amigos e família. Reparem na citação acima, do primeiro parágrafo de O Hobbit, que aquela toca é um lar aconchegante, é limpa e abastecida. Um lar ideal.

Tolkien me interessa porque teve a capacidade de transportar para sua obra muitas angústias próprias do ser humano. Um pai com um filho servindo na Segunda Guerra (seu terceiro filho alistou-se e serviu na África do Sul), escrevendo sobre um hobbit (Frodo) dirigindo-se a uma fortaleza maligna; sobre Reis que perdem filhos sob ataque, angústias existentes para todos os seres que vivem em sociedade, sejam homens, elfos ou anões.

O Hobbit conta, em forma de rememoração, as aventuras de Bilbo Bolseiro, Gandalf e uma Companhia de treze anões que buscavam retomar o seu lar, que jazia ocupado havia décadas pelo terrível dragão Smaug. O ritmo é ligeiro, e os acontecimentos vão se sucedendo de forma dinâmica.

No capítulo V – “Adivinhas no escuro”, acontece um jogo de adivinhação particularmente interessante, visto que é o momento em que o autor dá vazão ao seu saber como linguísta e filólogo. Também, adiante, a conversa entre Bilbo e o dragão Smaug é muito interessante; olhem os adjetivos com que o hobbit se dirigirá à fera:

“Ó, Smaug, o Tremendo” (p. 217); “Ó, Smaug, a Maior e Mais Importante das Calamidades” (p. 217); “Ó, Smaug, o Poderoso” (p. 219)

Olhemos um pouco, por fim, para O Senhor dos anéis. No primeiro livro, há um momento que eu aprecio muito, quando os quatro hobbits estão no caminho, já fora do Condado e rememoram palavras do tio de Frodo: “ “É perigoso sair porta afora, Frodo”, ele costumava dizer. “Você pisa na Estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado (…)” “ (2000, p. 76)

Se OHobbit narra uma aventura num formato com mais movimento, em O Senhor dos Anéis a história repousa nas relações entre hobbits, elfos, anões e homens, enquanto buscam-se construir as alianças necessárias para dar conta da demanda do anel, tarefa da qual dependem todos os destinos. Do andamento do tempo, que é lento, à criação e fortalecimento de laços entre povos diferentes, paira uma grande reflexão sobre o combate ao mal, cuja maior arma é a amizade.

Dizemos que a literatura nos interessa porque o homem é aquele que diferencia-se da criação por produzir cultura, e produzir-se na cultura. Concordo, mas é mais. Quem lerá estas obras e não verá Gandalf como um conhecido de longa data? E a torcida pela união dos casais? E a dor pelas mortes? Estas obras permanecem e se atualizam porque falam de nós, porque um homem como nós desejava um mundo de paz.

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