Injustiçada

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DicasEm destaque!Gramática e OrtografiaMárcio Ribeiro

Por Márcio Ribeiro

Para esta minha primeira colaboração ao “site”, já agradecendo o gentil convite feito pelos editores, quero, aqui, defender uma velha senhora.

Até alguns nomes pelos quais é mais conhecida prejudicam-na, pois são denominações que a tornam pomposa, pedante: linguagem culta ou erudita. Prefiro o termo que a melhor define: linguagem ou norma padrão.

Ela já foi considerada a linguagem “certa”, enquanto sua irmã, a coloquial, ou popular, era a “errada”. Realmente, definições equivocadas.

Porém, a fim de sanar esse erro conceitual, criou-se outro. Hoje, livros didáticos e professores da área esforçam-se em demostrar que a linguagem coloquial deve ser valorizada, isso porque é a linguagem do “povo”. E que a língua padrão é a da “elite”.

Claro que a linguagem coloquial é válida: todos nós, que nos comunicamos no dia a dia com ela, sabemos disso. Aliás, então, é perda de tempo ensinar nas escolas a tal validade: sabe-se dela.

É só pensarmos nos textos literários: eles são impregnados de coloquialidade: ela colore os discursos dos personagens, faz parte também da narração elaborada pelo autor. Seria até ridículo, por exemplo, imaginarmos um texto literário em que personagens adolescentes “conversassem” utilizando-se da linguagem padrão, sem gírias. A nossa crônica literária tem, entre outras qualidades, como característica a linguagem informal, fazendo com que pareça que o narrador esteja sentado ao nosso lado, batendo papo conosco em uma mesa de bar.

Assim, a linguagem coloquial é a mais adequada a certas situações. E é esse o melhor conceito: sai o “certo” e o “errado” e entra o conceito “adequação”.

E a adequação da linguagem padrão? Lembremos que a coloquial é repleta de regionalismo e gírias: falarmos como falam as pessoas ao nosso redor: nossos vizinhos, família, amigos, grupos aos quais pertencemos (surfistas, roqueiros, etc.).

Então, quando se pretende escrever um texto que contenha informação, caso escrito em linguagem coloquial, nem todos os leitores entenderão, mas apenas o leitor que faça parte do grupo social do autor. Se um paulistano escrever que algo é “da hora”, será que o leitor mineiro entenderá o significado?

Já a linguagem padrão, e eis porque é a melhor designação, é isso mesmo: ela é “padrão”. Teoricamente, é a mesmíssima linguagem padrão que é ensinada a todos os alunos em todas as escolas. Dessa maneira, também teoricamente, todos a aprenderam.

Utilizando-a, então, deveremos ser entendidos por 100% dos leitores. E se o texto é informativo, a informação chegará também a 100% dos leitores.

A ciência depende desse conceito: descobertas e pesquisas são publicadas utilizando a linguagem padrão, tornando a informação científica acessível a todos, inclusive a outros cientistas e pesquisadores. Imagine-se esse tipo de texto em linguagem coloquial: isso impediria a propagação e desenvolvimento do pensamento científico.

Dominar a norma padrão não é sermos “subjugados pela linguagem da elite”. Mas é possuir uma ferramenta que amplia a nossa capacidade expressiva.

Dizer que a população só pode e deve dominar a linguagem coloquial, isso sim é puro preconceito, é admitir a falência da educação, é considerar impossível ensinar aos “pobres” a linguagem padrão. Daí, sim, ela pertencerá à elite.

Bobagem! Podemos, sim, ensiná-la a todos. E também ensinar a ideia de “adequação”: que o aluno deverá utilizá-la por exemplo, em um futuro “TCC”. E que a linguagem coloquial é utilizada quando ele quiser, por exemplo, relatar seu dia a dia num “blog”.

É essa atitude que deve receber o conceito de ‘certa”!

One Reply to “Injustiçada”

  1. Ivo L. disse:

    Gostei muito da matéria mas há que sempre fazer uso do bom senso.

    Legitimar os “vcs”, “fds” e similaritudes, alavancar à estâncias superiores as mídias de consumo rápido como vlogs e mesmo determinados blogs que se pretendem revolucionários em seu coloquialismo selvagem poder acabar com sentimentos mais elevados que a literatura alcança desde o âmago de sua criação.

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