Hobsbawn e as Eras da História

No prefácio de “A Era do Capital”, Hobsbawn diz algo que nunca, como amante da história, conseguirei esquecer.

“O livro pode ser lido independentemente, desde que os leitores se lembrem de que ele não trata de um período fechado que pode ser separado do que vem antes ou depois. História não é assim. Mesmo assim, ele não deveria pedir do leitor nada além de uma instrução geral adequada, pois é deliberadamente dirigido ao leitor não especializado. Se os historiadores devem justificar os recursos que a sociedade devotam a seus estudos, por menores que sejam, não deveriam escrever para outros historiadores.”

Após a leitura desse parágrafo, não consegui deixar de pensar no quanto de informações não chegam às pessoas justamente por este motivo, especialistas escreverem para especialistas. E, não se restringe ao campo histórico, mas a maioria das áreas de conhecimento e pesquisa.

Então, só por Eric levantar essa questão, seu público deve ser expandido. Mas, não só por isso, a série a “Era”, deveria ser leitura obrigatória a todos os apaixonados por livros e história, em especial a História Contemporânea. Portanto, vamos conhecer um pouco desse grande pesquisador e escritor.

Eric Hobsbawm

Eric John Ernest Hobsbawn nasceu no dia 9 de junho de 1917, em Alexandria, Egito, oriundo de um família judia. Seu pai, britânico, sua mãe, austríaca. O historiador foi criado em Viena, até que em 1929 seu pai morreu. Em 31 mudou-se para Berlim, onde presenciou o progresso de Hitler. Aderiu ao marxismo no mesmo ano.

Uma vez, foi questionado pelo diretor de sua escola o porquê de sua escolha, disse: “Você claramente não faz ideia do que está falando. Faça o favor de ir à biblioteca e veja o que consegue descobrir”, e o escritor, após muito tempo relatou em uma entrevista: “E então eu descobri o Manifesto Comunista e foi isso”.

“Era inevitável uma pessoa politizar-se naqueles tempos. Vivia na Alemanha e não podia ser social-democrata (eram muito moderados), nem nacionalista (era inglês e judeu), nem me interessava o sionismo.”

Em 1933 mudou-se para Londres, estudou no King’s College. Foi para Cambridge, tornou – se professor e deu aulas em Birbeck, instituição onde foi reitor.  Mesmo que fosse um marxista convicto, em nenhum momento permitiu que sua ideologia interferisse na sua visão da história. E, assim é conhecido até hoje como um dos maiores historiadores de sua geração.

Os livros de Eric mais conhecidos são a tetralogia: A Era das Revoluções (2009), A Era do Capital ( 2009), A Era das Revoluções (2009) e A Era dos Extremos (1995). Além deles, os: Mundos do Trabalho (2015), História do Marxismo (1985-89), Tempos Interessantes – Uma vida no século XX (2002) e Globalização, democracia e terrorismo (2007), entre outros livros. Alguns escritos somente por ele ou por vários autores, como o caso de: A invenção das tradições e Nações e Nacionalismo desde 1780, publicados no Brasil, respectivamente, em 2012 e 2013.

No país, suas entrevistas mais conhecidas foram feitas pela Globo News. Gosto muito da reportagem feita em 16 de fevereiro de 1997, com o entrevistador William Waack. Eric, quando perguntado pelo jornalista o motivo de termos o costume de perguntar aos historiadores sobre o futuro, responde: “Bem, há continuidade entre passado, presente e futuro…então o que acontece no passado…e o que acontece agora, será passado daqui a dois minutos devem ter uma continuidade no futuro”. Assim, parafraseando um colega, Hobsbawn foi o historiador que mudou nossa forma de olhar o passado.

Fui apresentada a esse pessoa no final do ano passado, já havia lido textos separados, no entanto, ainda não tinha tido contato com a sua obra. O primeiro, de muitos, que li foi “A Era do Capital”, sobre o período de 1848 a 1875. Indo da Comuna de Paris até a primeira Grande Depressão do Capitalismo. Simplesmente fabuloso, contém fatos, opiniões do autor, fotos, mapas, realmente um guia completo sobre a época. Um guia de 540 páginas, então preparem o café ou chá, pois a aventura é longa.

E, caso alguém pergunte, não saberei explicar, mas, enquanto pesquisava sobre ele, uma frase a muita perdida em minha memória veio à tona. “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe” , de Oscar Wilde. Acho que de alguma forma, essa citação passa o carinho e a gratidão que tenho pelo trabalho desse grande historiador.

UK. London. English historian and well known Marxist, Eric Hobsbawm in his house in Hampstead. Photo©Steve Forrest/IWorkers' Photos

Mas, esse senhorzinho simpático, e para lá de polêmico, infelizmente nos deixou. No dia 1 de outubro de 2012, faleceu aos 95 anos, no Hospital Royal Free em Londres, devido a pneumonia. Sua filha, Julia Hobsbawn disse: “Até o fim, ele estava se esforçando ao máximo, ele estava se atualizando, havia uma pilha de jornais em sua cama”.

Hobsbawn costumava dizer que tinha vivido “no século mais extraordinário e terrível da história”.

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“A história que mais me interessa é a que procura analisar o que ocorreu em vez de simplesmente descobrir o que aconteceu.”  Eric Hobsbawn

 

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