Histórias de Horror: o Mito de Cthulhu

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Em destaque!Hedjan C. S.Indicação de Livros

 

Heráclito de Éfeso, filósofo considerado o “Pai da Dialética”, disse que não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. O contato transforma o rio e a pessoa, fazendo com que o próximo encontro seja diferente.  E é claro que ninguém lê o mesmo livro duas vezes. A primeira leitura é a descoberta, a segunda é como (re)visitar um velho amigo.

Só que com Lovecraft essa mudança é ainda maior. Uma pessoa que comece a ler o autor e espere simplesmente encontrar uma obra de horror pode se surpreender de várias maneiras. Essas surpresas podem ser tanto positivas quanto negativas. Ainda usando a analogia do descobrir e o do visitar, tem gente que nunca mais quer visitar Lovecraft…

Howard Phillips Lovecraft (20 de agosto de 1890 -15 de março de 1937) não teve o merecido reconhecimento literário quando vivo. Tinha um número pequeno de leitores, escrevia contos para revistas de ficção baratas, geralmente com remunerações aquém do que sua obra merecia e nunca conseguiu publicar um livro. Hoje ele é considerado por muitos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX. Só pra se ter uma ideia, Metallica e David Bowie possuem músicas que falam sobre a obra do escritor.

H.P. Lovecraft é um daqueles autores que possui um bom número de fãs e um número praticamente igual de detratores. Os detratores da sua obra costumam apontar falhas em seu trabalho: os personagens são bidimensionais; os parágrafos são longos, com descrições muito rebuscadas; os diálogos praticamente inexistentes e, quando aparecem, são sofríveis. E por aí vai.

Entretanto é importante entender a contribuição do autor na criação do que se convencionou chamar de Horror Cósmico ou Cosmicismo. Essa filosofia, indo totalmente contra o Iluminismo, iguala o ser humano ao nível de poeira que será varrida pelo vento do tempo.  Os personagens humanos são meros observadores bestificados de eventos muito maiores do que nosso entendimento.

Lovecraft também criou um panteão de seres fantásticos que assombram os protagonistas pela simples menção de seus nomes. Só pra ficar em alguns exemplos: Cthulhu, o terrível deus com cabeça de polvo que jaz adormecido no fundo do oceano e se comunica com os homens através de sonhos; Shub-Niggurath, também chamada de A Cabra Negra de Mil Crias, que já foi (e talvez ainda seja) adorada por vários povos ao redor do mundo; Yog-Sothoth, um ser onisciente e tão intrigante que é chamado de “A Chave e o Portão”.

E como se não bastasse, o autor também criou o infame Necronomicon, um livro (fictício) escrito pelo árabe louco Abdul Alhazred e capaz de, entre outras coisas, trazer para nossa realidade os pesadelos cósmicos que serão responsáveis por varrer nossa existência da realidade.

Histórias de Horror: o Mito de Cthulhu reúne alguns contos fundamentais para quem quer se ambientar na literatura tão incomum desse escritor.

No primeiro conto, O Chamado de Cthulhu, acompanhamos o relato de um homem que, ao fazer o inventário dos documentos deixados por seu falecido tio-avô, descobre itens intrigantes: recortes de jornal, um manuscrito feito pelo seu falecido parente e um baixo relevo em argila representando um ser antropozoomórfico, mistura de homem e polvo.  Através da leitura dos documentos ele alcança o conhecimento que pode selar sua vida.

O conto tem passagens interessantes e os relatos do manuscrito, feitos por diferentes personagens, revelam que o culto estende suas garras (ou tentáculos) ao redor do globo.

O segundo conto “O Horror de Dunwich” começa nos falando de um povoado, a infame Dunwich, evitada desde sempre pelas pessoas das cercanias e por viajantes. O local foi palco de ritos profanos praticados pelos grupos indígenas que habitavam a região. Dentre dessa comunidade segregada existe uma família que vive isolada. Ou seja, são evitados e temidos pelos próprios párias. A família Whateley, composta por Zacarias, um velho louco e com fama de bruxo; sua filha Lavínia, uma mulher albina e deformada; e o novo integrante da família, Wilbur, um personagem envolto e mistério e com sua vida ligada de maneira intima aos Antigos, especialmente Yog-Sothoth. Conforme o rapaz cresce, acontecimentos estranhos assombram a cidade e caberá a um grupo de professores fazer algo para evitar que o mundo sucumba ao retorno dos antigos.

Um sussurro na escuridão é o meu preferido. Foi a primeira história que li de Lovecraft e foi amor à primeira vista do horror. Um professor especialista em folclore da universidade de Arkham, que recentemente veio a publico para desacreditar certas lendas da região, começa a se corresponder com um senhor que vive em uma área isolada perto das montanhas. O tal ermitão afirma ter provas sobre a presença de seres estranhos a esse planeta no local onde ele habita. A correspondência se torna frequente até que o ermitão pede por ajuda, pois agentes humanos das abominações que habitam a floresta não tem interesse em que suas atividades sejam reveladas.

Esse conto, além do clima de paranóia que vai se instalando aos poucos, possui momentos propícios para se roer as unhas das mãos e dos pés: a descrição dos bosques que se acreditavam vazios habitados por criaturas estranhas, os sussurros que chegam da escuridão, vozes invocando seres que não deveriam existir…

Por fim, o Assombrador das Trevas, dedicado a Robert Bloch (o autor do livro Psicose), fala do jovem Robert Blake, estudioso de culturas antigas, que se sente atraído por uma escura igreja abandonada evitada por muitos.  O jovem decide explorar o local e encontra itens e livros profanos… Entre outras coisas.

Enfim, Lovecraft possui uma obra interessante, intrigante e impressionante. Recentemente, durante uma conversa acalorada entre escritores, ouvi a seguinte máxima:

“O escritor é dono de apenas 50% do conto.”

Lovecraft, na minha opinião, fez isso como poucos. Algumas sugestões, alguns pontos que ele apenas deixa o leitor vislumbrar, foram capazes de se enraizar na minha imaginação, criar tentáculos e se reproduzindo por meiose, gerando mais e mais horrores diferentes.

 

Ficha Técnica

Histórias de Horror: O mito de Cthulhu

Editora: Martin-Claret

Ano: 2011

Número de Páginas: 200

22935678

 

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