Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Filósofo brasileiro, Luiz Felipe Pondé carrega o pseudônimo de “pecador irônico”. É autor das obras Conhecimento na desgraça: Ensaio Epistemologicamente Páscalina, Contra um mundo melhor: Ensaios de Afeto e Do Pensamento no Deserto: Ensaio de Filosofia.

O autor inicia com uma apresentação de suas pretenções quando salienta que não pretende contar a história da filosofia, afinal exitem vários livros que o fazem, mas sim trazer a luz um ensaio do dia a dia. Como todos sabemos o cotidiano vem carregado (dentre muitas coisas) de ironias, mas o autor vai além e pontua que intenciona ser desagradável com um determinado tipo de pessoa ou conduta: o políticamente correto. Peço ao caro leitor que acalme-se e respire fundo, este salientado pelo autor  se caracteriza por um indivíduo que vive numa “bolha de consciência social”.

Nos diversos ensaios que compõem a obra, Pondé imputa o indivíduo politicamente correto como uma doce mentira. Essa afirmação vem fundamentada nos vários discursos do cotidiano como política, educação, sexualidade, hipocrisia, moral e etc. Sua linha de raciocinio é desconcertante e muito bem embasada, o autor realiza uma incisão no ventre da humanidade e deixa notório as entranhas putrefatas para que o indivíduo  se horrorize e contemple a verdade inconveniente. O ponto mais provocante da obra é quando o autor pergunta ao seu leitor se este já praticou o mal a alguém que não merecia. Em seguida diz que se a resposta foi um sonoro “não”, é mentira.

A obra traz a luz o parentesco entre ceticismo e a irônia filosófica, o primeiro seria o primo desconfiado que dúvida de tudo e até tem afeto por este duvidar trazendo uma certa insegurança sobre as temáticas as quais aborda, já o segundo é a prima zombeteira cuja a única intenção é desmoralizar o opositor, busca na ironia trazer a luz alguma verdade que o opositor esconde nas sombras e que se for exposto, o humilha. A ironia filosófica prefere debruçar-se por temáticas de cunho moral, uma hipocrisia a ser revelada, sendo assim a obra apresenta-se como uma confissão de um pecador irônico.

Muito provávelmente todos nós somos pecadores, mas esse PC ( politicamente correto) não se percebe assim e ainda nega o fato do ser humano ser o animal mais amedrontado e assustado do mundo, pois para os outros existe uma cadeia alimentar então basta preocupar-se com seus predadores, para o humano existe o mundo inteiro e tudo que esta dentro dele. Para o PC o mais temível é a ética aristocrática da coragem e principalmente se ela precisar ser aplicada a vida cotidiana. Então este indivíduo contemplaria um covarde sempre que se olha ao espelho e quem carrega este adjetivo mente mais, foge das responsabilidades, trai seus amigos e colegas, usurpam glórias que não são suas.

Parece ofensivo e ridículo esse conceito acima, mas se refletir-mos o que tem os heróis de diferente dos demais é a capacidade de controlar o medo sobre assuntos que a maioria teme como a morte, perda do emprego, abandono, tristeza e etc. E quem nunca analisou a trajetória de um herói e pensou que em seu lugar teria fraquejado ou sucumbido, essa tenacidade do herói desperta idolatria nos demais. Sem entrar no mérito das questões do cenário nacional vivido no momento, mas como estamos carentes de heróis.

A discussão da diferença também ganha uma abordagem que pode ser vista como desconfortante, sugere uma acomodação que faria com que o capitalismo inclui-se os excluídos (salvo as ironias) e convida os excluídos, negros, mulheres, índios, homossexuais a utilizar o capital como ferramenta de luta por seus direitos.

As reflexões adentram a sala de aula e salientam que os educandos não são iguais em suas capacidades de produção e isso deve ser respeitado no sentido de deixar que cada um produza dentro de suas habilidades e não as equiparando. Para o PC, tudo pode ser justificado dizendo que o indivíduo é pobre, homossexual, negro, índio ou seja excluído. O sofrimento e as lutas nesses grupos não é negado, mas é preciso sempre ir além e andar para frente. O convite é para o exercício da virtude, uma qualidade de carater que pode sim ser desenvolvida e torna os indivíduos mais fortes e mais capazes de resolver seus problemas e dificuldade diárias.

Esta prática vai desenvolver um indivíduo capaz e como salienta Rand “ coragem, trabalho, inteligência e ousadia produz relações humanas ( econômicas, políticas, existênciais) concretas e produtivas”. Essas características fazem o indivíduo mais verdadeiro em suas relações”, é diferente do PC que cultiva inveja, preguiça, mentira, pobreza, destruição do pensamento tudo em nome do amor pela humanidade. Um aspecto muito interessante levantado é de que quando cresce a igualdade na democracia, cresce também a mediocridade pois os covardes temem a liberdade e a auto-crítica. Uma observação interessante é que esse homem da democracia quando quer algum conhecimento sobre qualquer temática, pergunta a pessoa mais próxima e o que esta disser na maioria das vezes é tomada como verdade e assim ao invés de conhecimento, o que se adquire é a opinião pública e é nesta que o marketing se apoia.

Toda essa concientização vai levar o indivíduo permear as suas relações pelo bínômio “eu-tu” e assim tanto faz se esse “tu” é planta, animal ou humano não vai mais importar para que este “tu” serve, mas sim a sua simples existência, suavizando as relações. Desta forma pode-se descobrir que não se busca a felicidade, nós a possuímos, precisamos exercitá-la. A produção de riqueza, fato ao qual muito indivíduos associam a felicidade,  está relacionada com originalidade, inteligência, capacidade de disciplina e não igualdade, a natureza não é igualitária nem com suas dádivas tampouco com suas misérias. Então para que a riqueza seja abundante é preciso deixar que o indivíduo produza o seu potêncial em todos os âmbitos.

A reflexão e exercício é não querer agradar a todos, pois além de impossível é uma forma de aprisionar-se, então o maior ato de liberdade é não preocupar-se com agrados. Mas isso não significa ser agressivo ou mal educado em nome do exercício do direito psicológico à liberdade. Devemos sim ser educados com o próximo e aprender a suportar as tensões da vida adulta pois isso faz parte do desenvolvimento humano, não com pacividade mas sim com muita reflexão da sua caminhada e construção como ser humano.

Estas idéias podem ser desconcertantes e é interessante vê-las serem defendidas com propriedade pelo autor. É uma mistura de opiniões chocantes com alusão a filósofos de peso, como Aristóteles, Nietzsche, Tocqueville, Edmund Burke, Platão e etc. Recomendo a todos que apreciam leituras filosóficas.

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