Ficção científica e a Filosofia: O fim da Infância de Arthur C. Clarke

Resenhar um livro de ficção científica não é uma tarefa tão fácil quando parece. O gênero, em alguns casos e por algumas pessoas, é tratado como literatura menor. Mero entretenimento. Um sanduíche literário. Algo que você consome só para aplacar a fome momentânea. Engano maior impossível. Os livros de ficção científica, como toda e qualquer literatura, é fonte importante para pensarmos a nós mesmos e o mundo em que vivemos. Por meio da arte, representamos o presente e imaginarmos o futuro ou o passado. E quando falamos de ficção científica e a criação de mundos alternativos, o único limite é a criatividade do autor.

Para tanto, escolhi um clássico do gênero, o livro O fim da infância, o inglês Arthur C. Clarke. Este senhor escreveu de dezenas de livros e contos de ficção e também foi divulgador de obras científicas de peso. Como exemplo mais famoso cito a sua obra 2001: uma odisseia no espaço, que foi adaptada pelo cineasta Stanley Kubrick e até hoje é aclamada como obra-prima do gênero no cinema. A obra da qual falamos foi adaptada e transformada em série no ano de 2015.

Por ora deixarei em aberto uma pergunta que me intrigou quando conheci o livro: por que ele se chama O fim da infância? Títulos, em literatura, são quase tão importantes quanto aquilo que nomeiam. E, cá entre nós, esse é intrigante. Mas, por enquanto é só. Não fiquem chateados, foi somente quando terminei a leitura é que o título fez todo sentido. A obra não poderia ter sido mais bem batizada.

O livro foi escrito em 1953. O mundo viva os anos iniciais da Guerra Fria, conflito político que opunha EUA e URSS. Bem, vocês podem estar se pensando: “Ok. Eu já estudei isso em História. E daí?”. Este é um ponto indispensável para compreender o contexto em que trama está inserida. À época as duas superpotências já contavam com armas nucleares, capazes de dizimar tanto os seus inimigos quanto o resto do planeta. Bom, nós já sabemos o que aconteceu, ou melhor, não aconteceu: uma guerra nuclear. Mas, se hoje nós olhamos para o passado, eles, nossos antepassados, em 1953, olhavam para o futuro. E este não era muito animador.

A narrativa trata sobre a chegada de alienígenas ao nosso pequeno planeta azul. As mesquinharias e disputas geopolíticas foram eclipsadas pelas gigantescas naves espaciais que se posicionaram sobre as principais cidades do globo. E lá ficaram durante anos, guiando a humanidade rumo à paz mundial. Entretanto, a sua tutela não foi tarefa simples. Nem todos os seres humanos aceitaram o fato de que criaturas, vindas de um lugar desconhecido, impusessem um caminho a nossa revelia. Como toda mudança profunda, o trabalho de construção da paz seria lendo e gradual, mas, irreversível. A empreitada contava com alguns complicadores: 1) eles só se comunicavam com o secretário-geral da ONU e 2) recusaram-se a mostrar a sua fisionomia.

A curiosidade não foi o maior problema enfrentado pelos Senhores Supremos (como foram batizados). A primeira geração de humanos resistiu em tudo que pode e foi nos pequenos detalhes que os visitantes se impuseram. Exemplo? Quando em uma tourada transmitiram aos espectadores as dores que o animal sofria. Pronto: nunca mais houve touradas no mundo. Ou qualquer outro tipo de violência. Bastava a sensação de vigilância para as pessoas deixassem de praticar atos que prejudicavam ao próximo e ao resto do planeta. Com o tempo a ausência de conflitos se enraizou.

O contato direto dos Senhores Supremos com a humanidade só aconteceu gerações após a sua chegada. Seria necessário expurgar os preconceitos humanos primeiro, pois somente assim poderiam aceitar criaturas tão diferentes de si.  NÃO DIREI COMO ELES SE PARECEM. O motivo é simples: ao ler o livro, acredito que sentirão o mesmo choque que senti quando eles finalmente revelam a sua identidade. Aliás, o livro foi, durante muito tempo, tomado como maldito justamente por causa da fisionomia dos alienígenas.

Os Senhores Supremos souberam canalizar todo o potencial humano para a resolução de problemas básicos, mas que, devido à ganância e a violência, nunca tinham sido solucionados. Sim, estamos falando de fome, infraestrutura básica e educação. Em poucas décadas os seres humanos saíram da economia da escassez para a economia da abundância. As tarefas pesadas eram realizadas por máquinas. Aos seres humanos, restou aproveitar o que o mundo e eles mesmos tinham de melhor. E foi nesse momento que os alienígenas se mostraram. Não houve choque, as mentes já estavam preparadas para aceitar as diferenças.

Depois da transição feita para o regime de paz mundial e gozando de todos os recursos possíveis, finalmente os humanos encontraram o tão almejado Paraíso Terrestre. A Utopia se concretizou. Ou, como disse o próprio narrador: a humanidade chegou à almejada Idade da Razão.

Entretanto, nem tudo era permitido. Havia uma interdição inegociável imposta pelos Senhores Supremos: os humanos não poderiam explorar o Cosmos. Poucos se impostaram com o fato. Eu disso poucos, mas, já sabemos como alguns seres humanos estão inclinados à curiosidade. E, muitas vezes, ao desrespeito às regras. No entanto, um personagem (não direi qual, obviamente) desobedece à ordem e descobre (de forma nada científica, diga-se de passagem) o sistema solar de onde vieram os Senhores Supremos. E, de uma forma mirabolante, se infiltra numa nave de transporte entre a Terra e a casa dos alienígenas.

Outro fato bastante comum sobre a curiosidade humana é que nem sempre a resposta que encontraram é aquela a qual desejamos. E foi assim com este personagem. O plano para a humanidade era outro. Nosso destino era muito maior do que conseguíamos pensar.

E aqui volto para o título da obra O fim da infância. Este título não poderia ser mais profundo, afinal o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724-1804), já falava sobre a maioridade humana e o uso da Razão (essa com letra maiúscula). Seria por meio do uso da Razão que o Homem sairia da sua condição infantil, mergulhada na pequenez do espírito, e alcançaria a sua maioridade, quando assumiria a sua condição de ser pensante e de indivíduo livre.

As utopias dos últimos séculos se pautaram no uso da Razão para alcançar o pleno desenvolvimento humano. Clarke retoma o tema e traz à luz um elemento perturbador: a humanidade, mesmo com o todo desenvolvimento científico e tecnológico, não foi capaz de solucionar problemas básicos.

A pergunta que fica depois da leitura do livro é “Será que precisaremos de uma força externa para nos guiar à maioridade?”

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Abraços e até o próximo artigo.

fimdainfan

 

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