Eu canto, tu cantas…

by:

Em destaque!Márcio Ribeiro

Sempre é bom ler/ reler/ ouvir/ reouvir a obra-prima “Construção” de Chico Buarque.

 

“Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico.

Seus olhos embotados de cimento e lágrima.

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro.

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público.

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego (…)”

 

O que a letra quer dizer? Há quem diga, inclusive professores, que é crítica às condições de vida e trabalho da classe operária nos anos 60/70. E “Trem de Ferro” de Manuel Bandeira?

 

“Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô…
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô…
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô…
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô…

Vaou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…
(trem de ferro, trem de ferro)”

Uma visão sobre o Ciclo do Café e o desenvolvimento das ferrovias?

Sobre “Construção”, eis o que disse o próprio autor numa entrevista que encontrei, vasculhando a internet (“Revista Status”, 1993):

 

“CHICO: Não passava de experiência formal, jogo de tijolos. Não tinha nada a ver com o problema dos operários – evidente, aliás, sempre que você abre a janela”.

Então, se há na letra crítica social, é inconsciente. Mas até hoje difunde-se uma ideia de protesto, intencional. (fonte: http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_construc.htm)

 

A respeito do poema do Bandeira, percebe-se que o texto não foi criado com foco exclusivo no conteúdo. Sua estrutura remete a um trem partindo da estação, acelerando, desacelerando (subindo morro?), acelerando novamente até parar na próxima estação.

 

Ouça o poema musicado clicando aqui: https://m.vagalume.com.br/tom-jobim/trem-de-ferro.html)

 

Mas não é só esse caso: todo poema é música. “Isto é resultado da poesia, que nada mais é que a construção artística de um texto, valorizando a forma, a estética. Assim como o pintor escolhe as cores, o artista poeta escolhe as palavras que, juntas, criam um “quadro” com ritmo e melodia.”

É a poesia presente nas letras de música que permite que cantemos “a capela”. A musicalidade não está nos instrumentos, mas na letra. Se canta música de língua estrangeira sem saber seu significado, você o faz pela presença da poesia.

E como fariam os quadrinhos, sem as palavras que são apenas sons, as onomatopeias?

Percebo que os jovens têm dificuldade com textos poéticos porque, muitas vezes, não lhes é informado essa percepção: que nem sempre palavras são usadas considerando apenas seu significado. Às vezes, não há nem significado. Repare no último verso:

 

“As Cousas do mundo

 

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;

Com sua língua, ao nobre o vil decepa:

O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa,

Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa

E mais não digo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.”

Gregório de Matos (fonte: https://pensador.uol.com.br/frase/NjUwMjg3/)

 

Sem tal percepção, busca-se no texto poético aquilo que estamos mais acostumados: conteúdo. Caso não haja conteúdo e não se percebe a poesia, o jovem não entende o porquê do texto, para ele um amontoado de palavras sem coesão. E isso o afasta da literatura poética.

Nós, professores, mesmo num lugar voltado à compreensão das coisas, como é a escola, temos que ter a humildade de que não entendemos aquilo que não pode ser entendido.

Compreender a não compreensão da poesia é compreender a poesia.

 

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Márcio Ribeiro é professor de redação, português e diretor do Curso Verus (www.facebook.com/cursoverus), especialista em preparar aspirantes a vagas em concursos militares e grande defensor da língua portuguesa. Estará sempre aqui, dando dicas de como escrever melhor, valorizando sempre o nosso idioma.

 

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