A distopia steampunk de o Circo Mecânico Tresaulti

Imagine um mundo devastado por uma guerra que destruiu não apenas cidades e as deixaram sem um nome, mas, também, o coração, a dignidade e a humanidade das pessoas. Imagine um mundo onde não há resquícios de felicidade nos corações humanos. Um mundo onde, a única fagulha de felicidade que as pessoas têm o privilégio de sentir uma única vez, é a passagem de um circo que vai de cidade em cidade, percorrendo toda a devastação pós-guerra levando um pouco de alegria para seus habitantes. Essa é o cenário criado pela autora Genevieve Valentine em seu romance de estreia O Circo Mecânico Tresaulti, publicado aqui no Brasil pela editora Darkside Books. Apesar de um romance de estreia e, naturalmente apresentar aquele gosto de uma certa “imaturidade” no fluxo narrativo (ou talvez seja culpa da tradução – vai saber?), Genevieve fez um trabalho um tanto quanto peculiar e promissor. Com a crescente indústria cinematográfica apostando cada vez mais em tramas distópicas, pós-apocalípticas, ficções cientificas que, várias vezes colocam em jogo a questão daquilo que nos tornam humanos, e que, quase sempre basta ver uma para saber o final de todas as outras, Valentine tomou esse conceito mais do que conhecido e o moldou com uma nova forma. É dessa forma que a autora concebe o circo Tresaulti e sua trupe, que comandados por uma mulher, Boss, viajam por esse mundo carcomido pela guerra e levam seu show extraordinário a cidades habitadas por pessoas mutiladas, com partes de seus corpos substituídos por peças de sucatas, metal e tudo aquilo que possa substituir o membro perdido. Em sua apresentação, o circo exibe “ As maiores curiosidades humanas que o mundo já viu. Homens Fortes, Dançarinas e Máquinas Vivas; Garotas Voadoras mais leves que o ar; Música da Orquestra Humana”. Não diferente dos habitantes das cidades, os membros da trupe de Boss também são humanos mutilados que escolheram perder parte de sua humanidade na expectativa de uma vida melhor, fora daquele mundo devastado. Escolhendo entrar para o circo, essas pessoas deveriam aceitar terem seus corpos modificados: seus ossos substituídos por ossos de cobre, mais leves e resistentes, articulações trocadas por engrenagens, órgãos trocados por máquinas, para que fossem mais fortes, mais resistentes, tornando-os praticamente imortais e indestrutíveis. Tudo isso moldado cirurgicamente pelas mãos de Boss que manipula os corpos dessas pessoas, não apenas com suas habilidades e conhecimentos de anatomia, mas, também, com uma espécie de dom criador de vida, como é revelado em alguns capítulos. E é por conta dessa habilidade de Boss e dos seus segredos para com a “remodelação” de seus companheiros que o circo é perseguido pelo tal Homem do Governo. Esses são os pontos originais e inovadores do enredo do romance. Contudo, Genevieve também foi original na construção narrativa. Em O Circo Mecânico, nós nos deparamos, ao longo da narrativa, com três narradores, ou melhor, com três vozes narrativas que se alternam entre os capítulos e nos provoca, inicialmente, uma confusão mental e não sabemos, ao certo, quem está falando já que vários capítulos terminam e não se conectam, de forma direta, com o que vem a seguir. Além das tradicionais vozes em primeira e terceira pessoa, a autora também explora o uso da segunda pessoa do discurso, algo pouquíssimo usado em nossa literatura. Diferentemente da primeira pessoa (em que o narrado fala de algo que aconteceu consigo) e da terceira pessoa ( o narrador é uma entidade onisciente que sabe tudo sobre todas as personagens da trama), o narrador em segunda pessoa é aquele que fala com o leitor, incluindo-o na narrativa e comandando exatamente seus passos. Por exemplo: “ Isto é o que acontece quando se dá um passo: Sua perna sai de baixo de você. A essa altura, seu tórax já está se mexendo e seu pé de trás já está pronto para impulsionar.” Pg. 22. Apesar de logo de início a leitura ser um pouco arrastada e, em certos pontos, um pouco cansativa, O Circo Mecânico Tresaulti carrega em seu âmago questões de laços familiares e o questionamento daquilo que nos torna humanos e de como uma guerra, a dor e o medo podem afetar isso.

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