Depressão na Infância

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Em destaque!Glaucieni Reis

Muito se fala em depressão atualmente. Mas é difícil imaginar que as nossas crianças que não param quietas possam estar passando por algo assim. A escola é o lugar onde a criança passa uma boa parte do seu tempo. Às vezes o dia inteiro. Então é onde esses sintomas vão aparecer além da casa.

Como podemos identificar se uma criança apresenta um quadro clínico de depressão? Por falta de tempo ou mesmo achar que criança não tem esse problema muitos pais não dão a devida importância as mudanças de humor, agitação, lentidão motora, condutas agressivas, perturbações do sono, fobia escolar e até mesmo queda no rendimento entre outros.

Trabalho com crianças há exatos 23 anos, e consegui ao longo desses anos conhecer e perceber as mudanças que ocorrem com frequência em sala de aula com relação ao seu comportamento. Certa ocasião, tivemos um aluno que chamarei de Fábio. Aluno inteligente, meigo, dedicado e muito extrovertido. Era um aluno muito querido por todos na escola, por conta de sua estrema simpatia e carisma.

Certo dia, Fábio recusou-se a realizar uma atividade proposta pela Professora em sala de aula. Na época fui chamada pela professora para conversar com ele. Chegando à sala deparei-me com uma figura oposta de tudo que era o nosso menino. Conversando com ele notei certa rispidez, um olhar distante e frio. Naquele momento senti que algo de muito sério estava acontecendo. Pedi permissão à professora e o levei até a coordenação para que pudéssemos conversar sem ter a turma olhando assustada para aquele menino que agora era o estranho para os demais.

Ao dar início a nossa conversa perguntei-lhe: “Fábio, você está sentido alguma coisa? Eu posso ajudá-lo?”.  Sua resposta foi um simples aceno de cabeça sinalizando que não estava acontecendo nada. Percebi que suas mãos estavam trêmulas, batia com os pés no chão num ritmo descompassado, o que não era peculiar em seu comportamento. Novamente tentei persuadi-lo, só que a pergunta feita foi mais pessoal e não teria como responder com apenas um balançar de cabeça.

Fui ao ponto que me mostraria à razão de vê-lo tão distante e irritado. Perguntei-lhe: Fábio como está à mamãe e o papai faz tempo que não os vejo lhe trazendo ou lhe buscando na escola. Eles estão bem, meu querido? A resposta não poderia ter sido mais comovente. Vendo-o chorar compulsivamente com as mãos no rosto, Instintivamente o abracei como uma mãe abraça seu filho que acabara de se machucar ou está doente. Ficamos abraçados por certo tempo que não sei exatamente precisar, mas percebi que lágrimas também corriam do meu rosto.

Sabia que não seria fácil persuadi-lo a contar-me o que se passava em sua casa, mais era preciso. Tinha que conseguir, precisava ajudar aquele aluno a voltar a ser o que sempre fora, um aluno alegre, vibrante, atento e feliz.

E, assim fui esmiuçando cada palavra de modo calmo, gentil e acolhedor. Fábio sabia que podia contar comigo, pois havíamos acabado de chorar juntos. E, então eis que surge a revelação.  – Tia disse ele: meu pai bate em minha mãe todos os dias! E, eu me escondo, pois ele diz que se eu ficar olhando ou comentar com alguém irei apanhar também!

Essa é a triste realidade de Fábio e de outros tantos “Fábios“ que sofrem essa angústia e veem suas mães sendo agredidas todos os dias.  Essa é a nossa realidade, a triste realidade que assola lares e Instituições de Ensino todos os dias por minuto, por segundo.

Às vezes pensamos que ficamos imunes a certas situações que ocorrem na vida escolar de nossos alunos, mas sempre nos deparamos com algo novo, algo que nos causa espanto, tristeza e isolamento.

Bem, após a nítida sensação que o que estava perturbando nosso aluno, se encontrava em seu lar, precisava descobri o que estava acontecendo com a família de Fábio, o que o deixara tão perturbado a ponto de seu rendimento escolar estivesse decrescendo tanto, precisava saber mais, precisava ajudar aquela criança de acabara de completar 10 anos.

Se você que é educador ou pai pense no que isso possa afetar a vida de seu filho, o quanto o psicológico, o intelectual e social e o afetivo podem desmoronar por situações como a relatada por mim e por outras tantas que descobriram e presenciam tristes realidades como está história.  Sim, é a resposta: Criança desenvolve depressão e se não tratada podem chegar até o ponto crucial de qualquer doença física ou psíquica. Sentimento de culpa ou inutilidade ou até pensamentos sobre morte ou ideação suicida. E tudo isso está na sua própria família, dentro da sua própria casa.

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