David Small: um (improvável) rabino detetive

Uma das grandes imagens construídas pela Literatura Policial, talvez a maior, é a figura do detetive. Temos exemplos como August Dupin (Poe), Sherlock Holmes (Doyle), Hercule Poirot (Christie), todos  estrangeiros,  e o delegado Espinosa (Garcia-Roza), representante nacional. Esta figura literária atravessou décadas girando em torno do detetive particular, profissional ou amador, e do policial. Quase sempre um homem, exceção honrosa para a nossa querida Miss Marple (Christie).

Com o passar do tempo vemos, também, a morfologia da personalidade do detetive. Durante a Era de Ouro do romance policial, em que o formato de enigma era predominante, eram, em geral, figuras brilhantes e donos de uma capacidade mental extraordinária (Dupin, Holmes e Marple). Entretanto, com o surgimento do policial Hard Boiled e do policial Noir, essa figura muda: não é mais aquele ser brilhante, mas um homem durão, pessimista, amoral, beberrão, e, também, sentimental. Sam Spade (Hammet) e Philip Marlowe (Chandler) talvez sejam os mais emblemáticos. No entanto, o mundo do romance policial, nas últimas décadas, mudou bastante. Os “detetives” da trama já não se encaixam no binômio detetive particular/policial, hoje são jornalistas, pais desesperados, gente comum e um sem-número de outras opções.

E é justamente sobre a quebra desse paradigma detetive particular/policial que quero falar hoje. Primeiro vou apresentar o nome do escritor: Harry Kemelman (1908-96), professor e escritor de romances policiais, nascido nos EUA. Dono de uma escrita concisa e precisa, Kemelman se insere na tradição de escritores de romances policiais de enigma, mas, claro, atualizando as discussões que esta modalidade lida. Seus personagens e o mundo que os circunda são mais explorados do que o enigma em si.

Kemelman é criador de um dos detetives mais improváveis da história da Literatura Policial: David Small. Small é um rabino franzino, desleixado com a própria figura, aparentemente distraído para os pequenos problemas mundanos, apegado à tradição judaica e um profundo conhecedor da tradição talmúdica.

Confesso que quando vi os seus livros fiquei curioso. Ora, como alguém consegue transformar um rabino, um estudioso, um líder espiritual judaico, num homem metido em investigar assassinatos?

E é aqui que parto para o primeiro de doze livros da série que tem o rabino Small como protagonista: Sexta-feira o rabino acordou tarde, lançado originalmente em 1964 e traduzido pela Cia. Da Letras em 1991. Os outros livros da série foram igualmente lançados pela editora Sábado o rabino passou fome (1992), Domingo o rabino ficou em casa (1995), O dia em que o rabino foi embora (1998) e Segunda-feira o rabino viajou (2004).

A história do livro gira em torno da investigação do assassinato de uma moça, numa pacata cidade suburbana dos EUA dos anos 1960, Barnard´s Crossing. A vítima em questão era uma babá de vida pessoal insuspeita. Um dia ela aparece morta, ao lado de uma sinagoga, templo religioso judaico. As investigações da polícia apontam que o rabino Small estava no local no dia do crime. Ele mesmo afirma que sim, que esteve lá para examinar uns livros que recebera, mas voltou para casa a pé. Mas ainda há outro agravante: a bolsa da moça foi encontrada dento do seu carro.

A partir desta premissa Kemelman desenvolve uma narrativa enigmática. Nela todos são suspeitos, não só o rabino Small, que, aliás, é personagem ativo nas investigações. Como era de se esperar, não é com punhos e armas que ele resolve a questão, mas com a sua enorme capacidade de dedução e com a ajuda da sabedoria talmúdica.

Misturando as premissas clássicas da ficção policial de enigma, Kemelman também faz uma arguta análise de costumes. O autor coloca uma lente de aumento nas cidades pequenas e nas suas relações invasivas em que todos se vigiam e se controlam. Nesse processo desnuda, também, as próprias relações dentro da comunidade judaica, que replica os mesmos hábitos de vigilância e controle. Maus hábitos, segundo o rabino Small, que não faz questão de ser simpático, mas sim fiel a Torá.

Durante as investigações a sua capacidade de liderança é posta em jogo. E o que emerge desta discussão não é somente a possibilidade de Small ser um assassino. Antes disso, é imagem da comunidade judaica perante os vizinhos cristãos o principal motivo da discussão e preocupação.

A resolução do mistério segue, portanto, paralelo às discussões das comunidades e da ameaça da quebra dos acordos tácitos entre os seus integrantes. A moça em si, uma estranha, é um problema secundário, a imagem da comunidade é a verdadeira vítima. Kemelman, neste romance, se mostra um observador e um cronista de costumes, fato que torna a história ainda mais saborosa. Interessante para os leitores e mais ainda àqueles que conhecem pouco a tradição judaica.

É nas discussões entre o radino David Small e o detetive da polícia Hugh Lanigan que travamos contato com a sabedoria de duas tradições religiosas que são parentes: a tradição judaica e a tradição cristã católica.

Fica então o convite para ler as aventuras deste excêntrico detetive, o rabino David Small.

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Abraços e até o próximo artigo.

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