Cuidado com essa arma aí, Chekov…

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Alexandre D'AssumpçãoEm destaque!

“Cuidado…


Cuidado…
Cuidado com esse machado, Eugene.

Carefull With that Axe, Eugene “- Pink Floyd

Um pouco de Pinky Floyd não mata ninguém, né? Rock progressivo do bom. A música em questão é do disco Ummagumma, de 1968.  O machado está ali e Eugene planeja usá-lo. Em alguém, talvez?

 

Parece bobagem, mas tudo que fazemos instintivamente (ou não) alguém queimou a mufa para organizar e criou uma regra para a brincadeira. A regra da vez é a Arma de Chekov.  O dramaturgo e escritor Anton (não confundir com o Pavel) Chekov criou uma regra para o uso de armas em cena que virou um dos mais importantes recursos narrativos desconhecidos.

 

Segundo Chekov, se a arma estiver lá é para ser usada em algum momento, é um lampejo de alguma importante cena futura, ela não pode ser ignorada depois de introduzida.  A regra foi criada pelo escritor russo como uma resposta ao excesso de elementos de cena (tanto no teatro quanto nos livros) usados por seus contemporâneos, a maioria é abandonada nas cenas seguintes sem importância alguma para narrativa.  Segundo o Russo, a função da arma seria fazer a trama andar.  Uma analogia óbvia são os filmes de terror. Quando o assassino mostra sua arma, todos sabem o que vem depois. E se o assunto não for sangue e tripas, a arma vira um dos elementos motivadores da história e de tempos em tempos precisamos revê-la. Um bom exemplo é a arma do filme Tudo acontece em Elizabethtown é um álbum de fotos com o trajeto que o personagem precisará fazer. Em cada parada, o personagem coleciona elementos que impulsionam a história adiante ao longo de sua catártica viagem com as cinzas de seu pai morto que são despejadas em lugares importantes ao longo da viagem. Tal qual a arma, as cinzas são liberadas (ou usadas) em diferentes momentos. Num RPG, por exemplo, a arma pode ser um medalhão que ninguém deu nada por ela, mas que surpreendentemente protege o usuário do ataque de um demônio e ele passa a utiliza-lo na luta contra seu antagonista. Ainda usando jogos como exemplo, num videogame, a arma pode ser ainda mais explicitas. Quantos itens mágicos ou armas encontramos durante nossas incursões em nossos mundos de fantasia preferidos?

Como os cursos e oficinas andam cada vez mais genéricos, muitos escritores desconhecem completamente estes elementos e outros os utilizam sem saber. Acabamos influenciados pela cultura pop ao nosso redor e simplesmente copiamos sem faze um plano e acabamos gastando mais balas do que o necessário ou simplesmente não percebemos que a arma estava ali implorando para ser usada o tempo todo.

 

 

Seguem as regras de Chekov:

“Ninguém deve colocar um rifle carregado no palco se ninguém estiver pensando em dispará-lo. ”

 

“Se no primeiro ato você colocar uma pistola na parede, no seguinte ela deve ser disparada. Em outro caso não coloque ela lá. ”

 

“Se você diz no primeiro capítulo que um rifle está pendurado na parede, no segundo ou terceiro capítulos ele deve absolutamente ser disparado. Se não irá ser usado, não deveria estar lá. ”

– Anton Chekhov

 

E por hoje é só, pessoal! Até nossa próxima aula.

 

Alexandre D’Assumpção

 

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