Capitu traiu ou não Bentinho? Quando a Literatura dialoga com a Filosofia.

Sem a menor sombra de dúvidas essa é a maior questão da literatura brasileira. No ano de 1900, o escritor, crítico, poeta, dentre muito mais, Machado de Assis, lançava no mercado editorial e para sempre na história da literatura a fascinante história de Dom Casmurro e com ela a questão que intitula e inspira o artigo. A obra não somente é muito bem elaborada quanto a aspectos que dizem respeito à narrativa como possui uma riquíssima demonstração de domínio linguístico e de conhecimento da natureza humana. Ambientada no Rio de Janeiro do século XIX, a trama narra, em sumo, todos os eventos importantes da vida de Bento Santiago, protagonista da história junto com Capitolina, a famosa Capitu. É muito provável que você já conheça a obra e sua trama, então reduzamos tais apresentações de roteiro e vamos ao que o nome dessa coluna propõe.

Pois bem, a resposta para tal pergunta é bilateral, ou sim, ou não. Analisemos literariamente ambos os pontos de vista.

Caso “Não”, Capitu não terá traído Bentinho, e isso pode ser fundamentado primariamente pela mais explícita característica da obra: o fato da narrativa ser em primeira pessoa, ou seja, toda a narrativa é descrita do ponto de vista de uma personagem já inserido na narrativa, no caso, o próprio suspeito de psicótico, Bentinho. Então vemos tudo através de seus olhos, e como pode confirmar o famoso filósofo e mestre da metafísica Immanuel Kant, o que vemos da realidade não é a própria realidade, mas nossa percepção dela. Aplicando a lei de Kant no romance, o que vemos não é a verdadeira história, mas sim a percepção dos olhos de quem a descreve, percepção tal, que é acompanhada de uma série de sentimentos ciumentos do narrador, logo, é óbvio que a realidade ali relatada está mais do que distorcida. E se distorce mais, quando já no fim da vida, solitário apenas esperando o momento de sua vida ser execrada, Bentinho decide ir ao teatro e a peça que assiste é logo um expoente dos ciúmes: Otelo, o Mouro de Veneza, o que pode claramente ter agravado suas suspeitas sobre sua já defunta ex-esposa. Dentro desse diálogo, entre a metafísica filosófica e a literatura pura, podemos mais uma vez afirmar, que o que é ali relatado não é a verdadeira história, mas o que Bentinho sentiu dela, sendo porquanto, suspeitíssimo que Ezequiel seja filho de Escobar.

Ainda pegando emprestado conhecimentos de filosofia, podemos elaborar a teoria do “Sim”, em que Capitu seria sim culpada, que teria traído Bentinho. Dessa vez no entanto, não seremos guiados por um mestre filosófico, mas “apenas” por nosso raciocínio lógico, fundamentado na mais básica teoria da literatura.

Dom Casmurro é um livro fictício, e dentro da ficção “uma obra não transcende a si própria, sendo o que consta nela, o tudo e o apenas”, em outras palavras, a resposta para a grande pergunta está no próprio livro, não na filosofia alemã. Usando mais ainda a lógica, chegamos, talvez, mais perto da resposta e cada vez mais profundo no que é a realidade: quem escreveu a história não foi Bentinho, mas sim a única pessoa que pode dar a palavra final da inocência ou não de Capitu: Joaquim Maria Machado de Assis. Então, ele diz no romance que tal traição ocorreu? Podemos encontrar muitas dissertações que ele dá pistas que sim, sendo a principal, uma suspeita visita de Escobar à casa de Bentinho, quando este não lá estava, estava apenas Capitu…

A magia do texto é tão envolvente que quase não percebemos a delicadeza com que Machado de Assis diz que Capitu traiu Bentinho, apesar de, falar pela voz de Bentinho, no capítulo que encerra a narrativa, algo com certeza de muito interessante é dito:

 

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! Vamos à História dos Subúrbios.

 

 

Compreende-se muito bem que o leitor não acredite quando se é confirmado que ambos enganaram a Bentinho tendo como base esse trecho, que é quem encerra o livro, mas a lógica nos diz que é Machado de Assis quem escreveu, já que Bento Santiago jamais existiu, a não ser na literatura, na ficção, na bela arte da mentira.

 

Para fins de complementação desse estudo, recomenda-se o livro “A Metáfora do Mar em Dom Casmurro”, do professor da Universidade Federal do Ceará, Linhares Filho.

O professor usa da análise de detalhes que talvez sejam “conspiracionistas”, para fundamentar a teoria que Capitu é culpada, podemos dar alguns exemplos:

Existe um diálogo de Bentinho e Escobar, em que o amigo do protagonista afirma estar nadando em mares muito perigosos. O professor diz que o mar, é a própria Capitu, quando ainda no início do romance é dito que ela possui “olhos de ressaca”, e Escobar ter morrido justamente afogado, deve ter lá seu significado. Um outro olhar sobre detalhes também é interessante, quando alguns nomes são dissecados como “Escobar”, dividindo “és cobar”, ora, “cobar” é um nome que aparece na bíblia na história exatamente do profeta Ezequiel (que tem o mesmo nome do filho de Capitu veja só que coincidência) recebeu o seu dom profético, em uma espécie de “renascimento”. Respeitando a inteligência do leitor, acredito não ser necessário traçar o paralelo entre ambas as histórias.

 

Pois bem, o advogado pronunciou-se e citou Immanuel Kant no tribunal, na tentativa de provar a inocência da pobre e injustiçada Capitolina, e o cruel promotor teve sua fala fundamentada na mais pura lógica, e o juiz, que é você leitor, qual é a sua sentença?

One thought on “Capitu traiu ou não Bentinho? Quando a Literatura dialoga com a Filosofia.

  1. “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”
    Olha, essa é uma das perguntas mais difícei de responder. Toda vez que leio o livro eu chego a uma conclusão diferente. Já culpei Bentinho, já culpei Capitu, cheguei até a culpar Escobar, mas nunca, NUNCA, consegui chegar a uma resposta satisfatória para a pergunta inicial. Portanto, ainda estou em cima do muro, sem saber pra que lado devo pular.

    Agora mudando, de assunto, quero parabenizar a todos que fazem parte da equipe Litere-se, eu descobri a revista por acaso e estou encantada pelo conteúdo vasto e de qualidade. Vocês realmente sabem o que estão fazendo, os posts são riquísimos, o conteúdo é fantástico.
    Parabéns a todos, muito sucesso e que o Papai do Céu os abençoe sempre.

    Grande abraço,
    Melissa Carvalho

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