Bellini e o Demônio – um policial noir brasileiro

Neste artigo falarei sobre o livro Bellini e o Demônio, lançado em 1997, pelo escritor paulista Tony Belloto, figura conhecida na cultura brasileira, pois é guitarrista e um dos membros fundadores da banda de rock Titãs.

Tony iniciou a sua carreira de escritor em 1995, com o primeiro romance protagonizado pelo detetive paulistano Remo Bellini, Bellini e a Esfinge. O detetive ainda aparece em outras duas histórias: Bellini e os Espíritos (2005) e Bellini e o Labirinto (2014). Além da série detetivesca, ele escreveu outros livros: BR163: Duas Histórias na Estrada (2001), O Livro do Guitarrista (2001), Os Insones (2007), No Buraco (2010) e Família (2015). Dedicou-se também à organização de duas coletâneas de contos policiais, Rio Noir (2014) e São Paulo Noir (2016).

Os romances Bellini e a Esfinge e Bellini e o Demônio viraram filmes, o primeiro em 2002 e o segundo em 2008. Ambos protagonizados pelo ator Fábio Assunção.

A escolha do romance Bellini e o Demônio como exemplo de Literatura Policial Noir brasileira segue a lógica da abertura de espaço para a inserção e a discussão da nossa ficção policial.

Os elementos típicos da literatura Noir, ou negra, como queiram, aparecem e são aqui utilizados para ambientar as narrativas do detetive Bellini, seja nas suas andanças pelo Rio de Janeiro, onde parte da história se passa, seja em São Paulo, sua cidade e habitat natural.

A escrita de Tony tem uma característica que me agrada muito: que é a relação de simbiose entre cidade e personagens. Já destaquei em artigo anterior o fato de que a ficção policial é um gênero literário que nasce com o fenômeno urbano, no século XIX. O caso é que o autor faz uso da relação espaço/personagem de forma muito competente. Bellini é um ser urbano, uma criatura que perambula como um camaleão pelo submundo da cidade. Por outro lado, quando necessário, se relaciona com grã-finos afetados e excêntricos. A fauna urbana, ocupante de todos os andares do edifício social – mal dividido, diga-se de passagem –, é muito bem explorada pelo escritor. O clima Noir impregna todas as páginas do livro.

Neste romance, separado em duas partes, Bellini tem que resolver dois casos: o primeiro está ligado à busca de um suposto original perdido do escritor policial Dashiell Hammett; o segundo é descobrir o mistério que envolve a morte de uma estudante de classe média alta num colégio tradicional de São Paulo.

Na primeira parte do livro, intitulada O romance secreto, Bellini não passeia apenas pelas ruas da Terra da Garoa, mas se aventura pelas ruas do Rio de Janeiro. É na ensolarada e quente Cidade Maravilhosa, e nos seus arredores, que o detetive paulistano, acompanhado de um detetive americano, procura por um suposto manuscrito perdido. Esta jornada o obrigado a socializar com o jetset carioca tanto quanto com os elementos miúdos. A busca pelo livro revela algumas peculiaridades do mundo dos ricaços da cidade, assim como as suas excentricidades.

Na segunda parte do livro, intitulada O Diabo numa fonte, Bellini é contratado pela jornalista Olga – Gala, para os íntimos – para elucidar o mal resolvido caso de assassinato de uma estudante em São Paulo. A jornalista desconfia de que a, aparentemente fácil, resolução do caso esconda algo de sórdido.

E para desvendar o caso o detetive, paulistano até a medula, perambula pelas ruas da metrópole. Desta forma o leitor, indefeso, é tragado pela vertigem da cidade. Dos inferninhos na Augusta aos bairros pobres da periferia, Bellini e Gala buscam por pistas para desvendar o caso. Quanto mais a dupla investiga, mais surpresas encontram. A polícia tampouco estava contente com o resultado das suas investigações e acaba por seguir os passos de Bellini.

Na busca de um funcionário da escola desaparecido, a dupla embarca para Anápolis, Goiás. E lá encontra um demonólogo e um homem morto. De volta a São Paulo, as buscas pelo assassino da colegial continuam, até que Bellini é preso como suspeito de assassinato.

A esta altura vocês devem estar se perguntando: e o demônio do título, aparece quando? A resposta você verá no livro. Mas, assim como o faz na Bíblia, ele se apresenta como um anjo de luz e a sua ambição e inveja põe em movimento as engrenagens da história.

 

 

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