As horas nuas e a razão desarenadora – Resenha

É a fala continua e incessante de Rosa Ambrósio que dá forma ao romance As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles. Uma fala continua como o tricotar quase eterno de uma manta que vai ganhando forma e volume a cada ponto. As palavras de Rosa são os pontos do tricô tão bem tecido por Lygia mergulhados em um fluxo de pensamento abissal que beira a margem quase indistinguível entre a loucura e a lucidez. Rosa, Rosa Rosae, Rosona, a atriz en décadence, narcisista, mergulha no que há de mais íntimo em si mesma e tenta pôr em ordem os pontos da sua vida nesse desordenado mundo em crise. Entre momentos de embriaguez e perfeita sobriedade, Rosa vai desfiando toda a sua vida num fluxo cronológico desordenado: um sem começo, nem fim.

Numa narrativa fragmentada, ela relembra seu primeiro amor, Miguel, o primo rico que cometeu suicídio. Passando pela sua relação matrimonial e tranquila com Gregório, homem taciturno, amante da mecânica celeste, perseguido, torturado durante um duro regime vigente no país, para, enfim, por um fim em sua própria vida. Ela também percorre seu relacionamento furtivo com Diogo, seu secretário e amante, oposto de Gregório. Por fim, mostrar sua indignação com Cordélia, sua única filha, e sua constante relação com homens velhos. E o universo de Rosa vai girando, “bestando no espaço’’ até encontrar o fio de lucidez em Ananta, a pequena Ananta, símbolo da bem estruturada razão, firme e impassível. Enfim, Rosa depara-se com os olhos em sua própria condição de envelhecimento após uma juventude de estrelato, beleza e sedução, amargando, agora, sua própria existência. Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu, ela canta. Décadence, decádence! Ela brada.

Mas, sem dúvida, a presença mais enigmática, misteriosa e que tem livre passagem em toda a narrativa, é o gato de Rosa Ambrósio, Rahul. Rahul, o gato onisciente, não aprisionado pelo tempo, percorre todo o romance lançando sobre sua dona e sua vida presente, seus olhos inquisidores de quem já viveu muitas vidas. É o senso comum de que os gatos têm muitas vidas que faz com que ele, diferente de Rosa que percorre seu único labirinto interior, percorrer seus vários labirintos de outras existências. Também é o mistério kafkiano que acompanha Rahul em suas reminiscências: o homem que fora em vidas passadas na antiga Roma e na casa das muitas mulheres para, agora, ser o gato apenas espectador dessas vidas cujos fantasmas ainda o assombram na sua condição de voyeur, tão distante delas. Ele ainda, prisioneiro da sua forma animal como um gato doméstico e castrado, sente sua própria impotência em relação às coisas da vida. ‘’Acariciam e castram’’ é como ele define sua relação com as mulheres em suas vidas. Entra em jogo, durante as muitas menções à castração, o complexo freudiano da castração, um rito de passagem traumático do outro lado do qual encontraremos nosso ajuste (ou desajuste) de “caráter”, a estrutura convencional de personalidade que utilizaremos em sociedade. A constante negação do feminino sempre presente, visível, sufocador e enraizado na vida dessas personagens. Outra bifurcação é o enredo de Ananta Medrado, a analista ligada ao movimento feminista e detentora da razão neutra e glacial, que apesar de ter todos seus movimentos previamente e visivelmente planejados, desaparece sem explicação lógica e plausível. Sua personalidade ordenadora e metódica se opõe ao caos das outras personagens que vagam pelo romance, mantendo fichários e agendas com inúmeras anotações. Ela é o feminino que se sobrepõe a Gregório. Contudo, a razão de Ananta, é desestabilizada pelo vizinho do andar de cima e seus movimentos noturnos. Essa presença a desestabiliza. Ela, Ananta Medrado, analista e marcada pela racionalidade é, enquanto ser feminino, supostamente virgem. Ela, que todas as noites escuta com deleite todos os passos desse homem que incorpora novamente o absurdo kafkiano nas suas relações noturnas, tem sua imaginação aguçada pela libido que sobrepõe a sua razão. E rotina da analista prossegue até seu repentino desaparecimento. Sem um desfecho decisivo, Lygia deixa seus personagens ainda lançados numa rede vital, caminhando eternamente em seus próprios labirintos sem um fio de Ariadne, e marcados para sempre em todos que, um dia, os conheceram.

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