A insustentável leveza do ser

“No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com que Nietzsche dissesse que a ideia do retorno é o mais pesado dos fardos. Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza. Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?”

 A insustentável leveza do ser trata de amor, traição, revolução, e mais do que isso, o sentido de nossas vidas. Os acasos que regem nosso destino, assim como descrito nas belas palavras de Paulo Leminski:

“O acaso é este encontro

entre o tempo e o espaço

mais do que um sonho que eu conto

ou mais um poema que eu faço.”

Os acasos, ou melhor coincidências, uniram os personagens principais, Tomas e Tereza. Foram necessários seis acasos improváveis para que esses dois estranhos ficassem apaixonados.

“Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz. Tentamos interpretar o acaso como as ciganas leem no fundo de uma xícara o desenho deixado pela borra de café.”

Antes de continuar a contar sobre esses dois jovens, retornemos ao começo. Esse romance de 1984 levanta das mais simples as mais complexas questões humanas. A primeira sensação que ocorreu-me assim que encerrei a leitura foi: terei que relê-lo o mais breve possível! Sim, ler de novo, pois é necessário que se faça. Para que até os mínimos detalhes dessa bela história sejam percebidos (e entendidos).

Milan Kundera de fato escreveu uma esplêndida obra. Em nenhum momento, (ou quase nenhum, é subjetivo) a leitura torna-se entendiante e sua narrativa cronológica e ao mesmo tempo psicológica é desafiadora, pois requer uma plena concentração. Embora não seja uma leitura difícil, não é mesmo, Shakespeare é avançado, Kundera é intermediário.

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Seus personagens principais são: Tomas, o médico mulherengo, Tereza, a fotógrafa apaixonada, Sabine, a artista determinada e Franz, o professor sonhador. Ambos envolvem-se em triângulos amorosos, adultérios e paixões vorazes, tudo isso, e muito mais, durante o período da invasão russa na Tchecoslováquia.

Em 1968, ocorreu a Primavera de Praga, foi nessa época que inciou-se a carreira de Tereza como fotógrafa (antes de conhecer o Tomas ela era garçonete), e também foi o começo do casamento deles. Não contarei muito sobre isso, pois o que quero é que sua curiosidade seja atiçada, nada mais. Tenho medo de dizer algo que faça perder, mesmo que só um pouco, a magia da descoberta numa leitura, então vamos apenas aos fatos essenciais.

Como já disse, foram necessários diversos acasos para que Tomas e Tereza se conhecessem. Ele estava relutante no início, não queria perder os seus encontros casuais, mas, ainda sim, sentiu algo por ela desde o primeiro encontro, e foi recíproco. Para ela, Tomas seria a mudança que tanto quis, uma guinada na sua vida, longe da cidadezinha que vivia. E dessa forma, encontraram o amor. No entanto, Tomas não abdicou de suas amigas, e Tereza sabia, e sofria, ambos sofriam.

“Mas ele não mandou. Ele a via ali enfiando agulhas sob as unhas, encostada na parede do ateliê de Sabine. Pegou seus dedos, acariciou-os, levou-os aos lábios e beijou-os como se houvesse nele sinais de sangue. Mas, a partir desse momento, tudo pareceu conspirar contra ele. Não se passava praticamente um dia sem que ela descobrisse alguma coisa nova sobre seus amores clandestinos.”

Há um fato crucial que o trecho acima revela, Sabine era amante de Tomas.

Quando penso em Sabine imagino um pássaro, mas aquele tipo de pássaro que não suporta ser aprisionado. Essa é a bela Sabine com seus relacionamentos, envolvia-se com homens casados pois tinha medo de ficar envolvida. E um desses foi Franz, um professor que conheceu no exílio em Genebra.

Com Franz foi mais intenso, ele era o oposto de Tomas, embora fosse casado, não amava a sua esposa e era tímido. Ele via na Sabine a sua musa, alguém em quem se inspirar, um espírito livre. Franz aprendeu a aproveitar a vida, ser mais espontâneo, só que as diferenças entre os dois eram muito evidentes. Mas, ainda sim, havia amor verdadeiro, tão verdadeiro quanto o amor de Tomas por Tereza.

 

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E, é assim que decido encerrar e fazer um convite. Convido a todos a lerem esse livro e apaixonar-se com os personagens, e claro visitá-los sempre que puderem. Tomas, Tereza, Sabine e Franz são personagens encantadores e muito humanos. A edição que li foi o da coleção Mestres da Literatura Contemporânea, no entanto tem muitas outras. Aos amantes das capas duras e clássicas indico esse, mas aos eternos fãs das capas artísticas das edições mais recentes indico a edição de 2008 da Companhia de bolso. Aproveitem esse tempo frio com muitos livros, Boa Leitura!

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