A Ficção Policial e o Romance de Enigma

A Literatura Policial é filha da sociedade industrial. Fatores socioculturais como a urbanização caótica, a exclusão social, o desenvolvimento da ciência, a popularização de folhetins sensacionalistas e de terror, influenciaram no surgimento desse novo gênero.

O embate entre criminosos e policiais, para muito teóricos, é a versão moderna dos antigos épicos. Aquele representa as forças do mal e do caos, logo é inimigo da sociedade e da ordem. Este, o herói épico, representa as forças do bem e da ordem, e luta pela restauração da harmonia rompida. Para tanto, o policial/detetive usa a sua inteligência superior e os conhecimentos científicos mais avançados da época para capturar os criminosos.

Posto o cenário, vejamos a importância do conto Os assassinatos na rua Morgue, de Edgar Allan Poe, que veio ao mundo em 1841. Mas, caro leitor, fique tranqüilo, não darei spoilers. Cá entre nós: eu os detesto. Aliás, acho que deveriam ser tipificados como crime! Trabalharei apenas como a narrativa contribuiu para a formação da literatura policial. Querem saber mais sobre a história? Leiam!

A primeira característica a ser destacada é a existência de um narrador que participa da história na condição de testemunha. Ele, cujo nome não se sabe, está inserido na história e é pela sua lente que os feitos do excêntrico e genial Auguste Dupin, filho arruinado de uma família ilustre francesa, são apresentados.

Os amigos, que flanam juntos pelas ruas de Paris, tomam conhecimento de um brutal homicídio duplo por meio de um jornal popular. Mãe e filha foram assassinadas dentro da própria casa. A polícia estava perdida, sem saber como trabalhar com as pistas que dispunham. Instigado pela excentricidade das mortes, Dupin decide investigar o crime por conta própria, pois acreditava que à polícia faltava um método investigativo. O método científico foi incorporado à literatura como característica dos detetives: a sua extraordinária inteligência, expressa na análise das pistas deixadas no local do crime. A ação se dá mais no plano mental do que no plano físico.

O conto, que se inicia com a explicação dos benefícios do pensamento analítico, é construído sobre a capacidade dedutiva de Dupin. É a partir do que foi descrito na reportagem e de observações diretas que o assassino é revelado. O mistério da morte é desvendado diante dos olhos do narrador e do leitor. O enredo é construído de forma que o leitor não entreveja o que está adiante, mantendo em alto nível a expectativa. O assassino, em si, é uma das grandes surpresas da história.

O conto de Poe é importante não só por ter sido pioneiro, mas, também, por ter posto as bases do que seria considerada ficção policial dali para frente: a solução do crime de morte, geralmente em circunstâncias misteriosas. Nesta o detetive contaria majoritariamente com a sua mente afiada. A essa “primeira” modalidade da Literatura Policial, dá-se o nome de Romance Policial de Enigma.

A partir daí o romance policial se organizará em torno de dois pilares: a história do crime e de quem o cometeu e a história da investigação e prisão do culpado. O conto de Poe é embrionário e é importante destacar que outros autores também contribuiriam para o alargamento do gênero, introduzindo os elementos que hoje lhe são característicos.

Destacada as peculiaridades de cada escritor, algumas características emergem dessa modalidade de romance policial. A seguir enumeraremos algumas.

  1. A presença do mistério. O assassinato é sempre exótico. O crime vulgar e corriqueiro não era material para o romance policial;
  2. A construção detalhada e cuidadosa do enredo. O leitor é posto no calcanhar do detetive, seguindo o protagonista no desenrolar da história e na resolução do mistério. O estilo é parte importante da trama;
  3. O número de personagens geralmente é pequeno, assim como é reduzido os espaços em que se desenrola o enredo;
  4. O detetive desvenda os planos dos criminosos com a sua mente brilhante. A ação física não é o foco da narrativa, mas sim o raciocínio do protagonista.

O período posterior da criação de Poe vê o romance policial ganhar espaço, ampliando cada vez mais o seu público. A virada do século XIX para o século XX assiste à explosão do gênero. E é aqui que destacamos outros gigantes como Arthur Conan Doyle, com Sherlock Holmes, Georges Simenon, com o comissário Maigret e a “Rainha do Crime” Agatha Christie, com H. Poirot e com a Miss Marple. O período do Entre Guerras, não sem justiça, é conhecido como a Era de Ouro do romance policial.

No próximo artigo analisarei a obra de um dos grandes escritores policiais brasileiros e que escreve excelentes romances policiais de enigma: Luiz Alfredo Garcia-Roza.

 

6 thoughts on “A Ficção Policial e o Romance de Enigma

  1. Boa tarde! Gostei bastante do texto! O filósofo alemão Walter Benjamin encontrou nas obras do poeta francês Baudelaire a figura do “flâneur”. É uma expressão para definir uma pessoa que vagueia pela cidade e a observa sem a menor preocupação em chegar ao seu destino. O “flâneur” desapareceu com a modernidade das cidades. Edgar Allan Poe se torna essa figura ao falar sobre as ruas e sobre os mistérios da cidade. O detetive de “Os assassinatos na rua Morgue” inspiraram diretamente o personagem de Sherlock Holmes. Abraço

      1. Opa, Washington! Tudo bem? Ele traduziu as obras de Allan Poe para o francês, mas não sabia que tinha sido o primeiro tradutor de Os assassinatos na rua Morgue. Obrigado pela informação! Abraço

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