A ficção policial de Thriller/Suspense

Olá, leitores, neste artigo continuarei a falar mais um pouco sobre a literatura policial. Nos escritos anteriores eu tentei, na medida do possível, demarcar espaço e tempo do surgimento dos estilos de ficção policial. Neste caso, assim como o hard-boiled e o noir, os marcos temporais e geográficos são, quase sempre, questionáveis. Da literatura policial sabemos apenas do seu início, com a narrativa clássica de Poe. O que se segue é um conjunto de novos nascimentos espontâneos e, em muitos casos, simultâneos. O trabalho de datação de cada modalidade, até mesmo para especialista, é um trabalho quase arqueológico.

O que interessa aqui é que entre a intriga do romance de enigma e a violência e sordidez dos romances hard-boiled e noir, surge uma nova modalidade da literatura policial, que os ingleses batizaram de thriller (literalmente “aquele que faz tremer”). É sempre importante frisar que, apesar de consistir num gênero “novo”, ele guarda parentesco com as outras formas de narrativa policial. O universo da ficção policial é extremamente complexo e permite que os escritores atravessem as fronteiras “convencionais” entre estilos. E isso é bom.

Deve-se ainda apontar mais um ponto importante a ser destacado: o thriller/suspense tem no cinema uma grande fonte de inspiração. Basta evocarmos os filmes de Alfred Hitchcock para que os pelos do corpo se eletrizem. Já na década de 1950 pode-se apontar o grande público que consumia filmes de temática policial. Com o passar do tempo, o enigma foi dividindo o palco com a tensão da descoberta, como o perigo que espreitava na próxima cena.

As principais características literárias do trhiller/suspense são a narrativa rápida, nervosa, cheia de reviravoltas; o chão é como areia movediça; as cenas, variando a entre a angústia e a euforia, não deixam o leitor sossegado. Aliás, calmaria é o que não existe. O protagonista, bem como o leitor, está preso num barco em meio à tempestade. E assim como o comandante de um navio no meio da tormenta, o melhor que se tem a fazer é seguir em frente, não importa para onde, contanto que seja para fora da tormenta. E que fique bem claro: continuar a marcha não é promessa de continuar vivo. Morrer na praia é o destino de muitos personagens.

Quando se aponta, aqui, o parentesco entre o trhiller e o suspense, também não há intenção teórica profunda. Colocamos as duas denominações no mesmo conjunto, porque ambos caminham na direção de maximizar o nervosismo do leitor. Enquanto o trhiller implica tensão, o suspense investe na ansiedade, pois nega ao leitor a capacidade de antecipar os movimentos da narrativa. Cada virada de página é uma promessa de reviravolta. Os plot twists são elevados à máxima potência. O leitor é, a cada cena, induzido aos efeitos da vertigem. A narrativa é uma flecha veloz rumo ao clímax da história.

Para que a narrativa tenha o seu efeito, não basta ter uma boa história, é preciso saber contá-la; é fundamental saber montá-la. É isso mesmo, a boa e velha estrutura narrativa. A arquitetura do romance de suspense tende a ser refinada e complexa. Ela também tem papel importante na criação de emoções. Muitas dessas narrativas costumam ser fragmentadas, cabendo ao leitor, construir as pontes e preencher os espaços. Em certos aspectos, o thriller/suspense é um jogo entre narrador e leitor.

Um dos recursos usados para aumentar a tensão da narrativa é o uso de um narrador que siga de perto os personagens, com o hálito em seu pescoço. Terceira ou primeira pessoa, não importa, o importante é mostrar a tensão psicológica dos personagens. Estes são jogados, querendo ou não, em situações de risco extremo. A eles não cabe guiar o rumo das coisas. Na melhor das hipóteses, conseguem adiar o inevitável. Na maioria dos casos eles estão preocupados em se manterem vivos. Qualquer coisa além disso é um luxo permitido a ninguém.

Lembram-se do barco em meio à tempestade? Se nos lembrarmos da poética de Aristóteles, podemos evocar o conceito de catarse. Por isso que o desfecho do thriller/suspense pode ser comparado ao alívio representado pela terra firme.

 

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