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A Casa sobre o Abismo

Existem livros consagrados na literatura do medo e que, de tão citados e transpostos para outras mídias, se tornaram famosos a ponto de que a simples menção do título cria em nossas mentes uma série de significados. É assim com Frankestein, Drácula, O Médico e o Monstro, etc. Mas também existem aqueles livros importantíssimos para o gênero mas que, por um motivo ou outro, não são de domínio do grande público. Algumas vezes são obras que surgiram anos antes do sucesso de outras obras semelhantes. E é curioso perceber como certos tipos de ideias assustadoras já tinham se manifestado na cabeça de outros escritores.

Vamos conhecer um pouco sobre uma dessas preciosidades obscuras.

“A Casa sobre o Abismo” (The House on the Borderland), escrita por William Hope Hodgson (1877-1918), é um daqueles livros que te deixam tenso. Não por acaso essa obra de 1908 é considerada uma das que influenciaram H.P. Lovecraft e suas criações no horror cósmico. O horror e a ficção científica se mesclam de maneira perturbadora nessa obra, criando uma atmosfera que foi muito bem explorada nas obras posteriores do próprio Lovecraft.

Eu encontrei a edição de 1996 ao garimpar uma estante esquecida em um sebo do Centro do Rio de Janeiro. O preço pago pelo livro, R$ 1,00 no distante ano de 2006, é bem diferente dos valores que encontrei ao procurar o mesmo livro na internet, que varia de R$ 25,00 a R$ 200,00(!). Pelo que andei pesquisando, não existiram muitas traduções para o português dessa obra. Por sorte, em 2016 a Papirus lançou um edição dessa obra, facilitando a vida dos amantes da literatura fantástica.

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A Casa sobre o Abismo tem uma narrativa bem peculiar. No começo, uma introdução fala sobre um manuscrito perturbador entregue ao narrador. Uma observação interessante sobre essa parte é que ela é assinada pelo próprio autor, que fala do tal manuscrito como se ele realmente existisse. Logo, se o manuscrito realmente existiu, a história do livro não é uma obra de ficção. Se pararmos pra pensar que o livro foi escrito em 1908, isso se torna ainda mais genial. Quando o filme A Bruxa de Blair estreou nos cinemas, no longínquo ano de 1999, o boato de que o núcleo da história do filme (as tais fitas encontradas pela polícia na floresta) serviram para aumentar o interesse em torno desse filme.  Ou seja, William H. Hodgson foi genial logo de cara, criando algo que Lovecraft também soube explorar muito bem (até hoje, muitas pessoas acham que o Necronomicon, o livro maldito criado pela imaginação do autor, é real). Em seguida, a história passa a ser contada por um dos homens que encontraram o tal manuscrito. Esse homem, acompanhado de um amigo, explorava uma região isolada. Por fim, temos as informações do próprio manuscrito, a parte central da história. A sugestão de que o material da história seria verdadeiro, o deslocamento bem utilizado de narradores são um artifício bem interessante e que, com certeza, dá um toque único à história.

De maneira resumida, o livro fala sobre dois amigos que exploravam uma região isolada e com fama de maldita. Eles acabam encontrando um enorme abismo e uma casa que, pela maneira como foi construída na beira de um abismo, parece desafiar as leis da física (isso me lembrou as descrições Lovecraftianas sobre construções com ângulos que parecem “errados”). Ao vasculharem as ruínas da casa, descobrem um manuscrito contendo anotações sobre acontecimentos estranhos. Pra piorar, a dupla de exploradores também presencia sua fatia de situações estranhas.

Durante o livro, a sugestão da região onde fica a casa como uma fronteira entre dois mundos aparece diversas vezes. Do começo ao fim somos apresentados a uma atmosfera de mistério, ameaça e terror que vai se tornando mais e mais densa. O isolamento dos personagens principais enquanto seguem na leitura do manuscrito também cria aquela ar de terror gótico ao livro.

Como já foi dito antes, apesar de não ser tão conhecido como outros clássicos da literatura do medo, esse livro merece ser lido não apenas pelos fãs de Lovecraft, mas por todos os fãs da literatura fantástica.

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